A Semana Mundial do Meio Ambiente se aproxima e
no Município de Niterói várias atividades de risco ambiental ameaçam
o patrimônio ecológico, comprometendo a qualidade de vida dos niteroienses.
No Parque Estadual da Serra da Tiririca a
morosidade no encaminhamento da minuta de projeto de lei que define
os novos limites têm facilitado invasões e construções iregulares
em áreas de Mata Atlântica, alguma inseridas em áreas de preservação
permanente (o "processo político-administrativo" está emperrado há
quase um ano). A não constituição do Conselho Consultivo têm prejudicado
a participação popular na gestão do parque, propiciando situações
inusitadas como o abandono do posto avançado de fiscalização na trilha
da Enseada do Bananal, em Itacoatiara,(obra ainda incompleta por falta
de pagamento de empreiteira). Áreas mineradas no interior do parque
- pedreira Inoã e saibreira Fernandes e Oliveira - estão "largadas
ao tempo" sem qualquer recuperação da vegetação nativa. Loteamentos
ilegais e condomínios continuam avançando sobre as florestas, como
o Jardim Fazendinha e, agora, o "Sítio dos Macacos" (alguns "sitiantes"
têm se estabelecido recentemente no interior do parque argumentando
"posse de terras" garantido pelo INCRA, em detrimento das definições
técnicas do IEF).
A Reserva Ecológica Municipal Darcy Ribeiro continua
em sobreposição legal ao Parque Municipal da Pedra do Cantagalo. Por
estar, também, inserida na Área de Proteção Ambiental - APA das Lagunas
e Florestas de Niterói tornou-se, automaticamente (por imposição de
lei municipal) uma Zona de Preservação da Vida Silvestre - ZPVS, onde
não é permitido qualquer tipo de intervenção humana (situação administrativa
conflitante por que existem mais de 17 loteamentos e condomínios em
seu interior). Não dispõe de Plano de Manejo para adequar o uso e
ocupação do solo em seu interior ou orientar pesquisadores e ecoturistas.
Sua categoria de Unidade de Conservação foi extinta por força de lei
federal desde 2000. A Prefeitura de Niterói não assume suas responsabilidades,
tornando-se conivente com as evidentes e constantes invasões ilegais
em áreas de cobertura vegetal nativa.
A Praia do Sossego, tombada desde 1991, teve
seus limites de proteção eco-paisagístico dominuídos em 1997 por decreto
municipal. Em 2002 alcançou a categoria de Monumento Natural, aprovado
em lei municipal, mas continua sendo invadida, tendo sua vegetação
de restinga (remanescente original) suprimida sucessivamente por ocupações
ilegais (inclusive comércio irregular), queima de lixo e despejo de
esgoto in natura na areia. Autoridades municipais, infelizmentem,
parecem ignorar a importância ecossistêmica continental e marinha
na praia do Sossego.
As Lagunas de Piratininga e Itaipu têm sido vítimas
do processo histórico de interveções humanas desde a abertura do Canal
do Camboatá (década de 40), e depois com abertura permanente da laguna
de Itaipu (aprovado pela Prefeitura de Niterói com o Plano Estrutural
de Itaipu). Vem sofrendo com a diminuição contínua do seu espelho
d'água e vida marinha (peixes, crustáceos) por motivação da eutrofização
e assoreamento originado no despejo do esgoto in natura e carreamento
de material detrítico orgânico oriundo das áreas de encostas desmatadas
para ocupação urbana (sob os auspícios da administração municipal).
Suas margens não dispõem de sinalização das faixas marginais de proteção,
facilitando o aterramento ilegal. A vegetação de manguezal, adaptada
ao ambiente lagunar após a abertura permanente do canal de Itaipu,
está ameaçada pela aprovação de novos empreendimentos imobiliários
(em especial em Camboinhas). As obras de recuperação do sistema lagunar,
anunciadas pela SERLA, devido a incontinência administrativa na conclusão
e manejo das iniciativas de órgãos públicos (veja o exemplo inconteste
da comporta da laguna de Piratininga e o estado de "conservação" da
"ciclovia" na mesma laguna) ameaça o costão rochoso da prainha de
Piratininga (devido da incisão que será feita na rocha para passagem
de água do mar para laguna) e ao aqüífero (reservatório de água doce)
na Região Oceânica, uma vez que poderá propiciar o avanço do bolsão
salino (infiltração de água salinizada) sobre os poços artezianos
e semi-artezianos (favorecendo, ainda, o monopólio de distribuição
de água doce da concessionária Águas de Niterói), sem garantir, em
momento algum, a despoluição e recuperação do conjunto do sistema
lagunar de Piratininga e Itaipu. Até mesmo a irrisória iniciativa
da Prefeitura de Niterói em querer definir o "plano de manejo" do
"Bosque Lagunar de Itaipu" parece encontrar alguns conflitos de competência
legal, uma vez que é sabido que a administração de sistemas lagunares
e peri-lagunares é de competência exclusiva da SERLA e, em alguns
casos, do IBAMA e do SPU. A iniciativa de autoriades municipais aponta
para mais uma maquiagem verde (onde interesses da indústria imobiliária
querem garantir seus "espaços territoriais" para construção civil)
do que alguma ação de resultado conservacionista.
No Parque da Cidade, localizado no Morro da Viração,
com acesso por Charitas, a "área protegida" não alcança seu objetivo
devido a ausência de Plano de Manejo e evidente falta de uma administração
que viabilize sua gestão participativa junto aos moradores de São
Francisco, Charitas e Jurujuba, ou mesmo as comunidades de baixa-renda
do Preventório e Santo Inácio. Não há no local qualquer evidência
de manejo sustentável das áreas florestadas ou garantia de fiscalização
permanente, sinalização de trilhas ou mesmo segurança para os visitantes.
Uma vergonha.
O Lixão do Morro do Céu, situado no bairro
do Caramujo, Zona Norte de Niterói, continua a despejar in natura
todo o seu chorume no rio Matapaca, contaminando o lençol freático
da ragião e a Baía de Guanabara. Com a previsão de vida útil para
dois anos, forçada por decisão judicial obtida pelo Ministério Público
Estadual em ação cível pública, qual é a alternativa viável, sob o
aspecto ecológico e econômico, para a Cidade manejar e concentrar
a sua produção de lixo ? Para onde têm ido o lixo hospitalar ? A destinação
final do "nosso" lixo é uma verdadeira caixa-preta.
As Estações de Tratamento de Esgoto, sob a administração
de uma concessionária, ainda não garantem a descontaminação de nossos
corpos d'água naturais. Qual é a realidade numérica de contaminantes
líquidos originados em Niterói ? As atuais ETEs são eficazes no seu
tratamento ? Quantos bairros estão sendo atendidos pelas ETEs ? Há
alguma "medida compensatória" para a concessionária que estabeleça
critérios de uso sustentável dos manaciais que abastecem o Município
?
A Indústria Naval avança no Município, estimulada
pela reativação do Porto de Niterói e descoberta de novos poços
para exploração e produção de hidrocarbonetos (petróleo e gás) no
banco da Bacia de Santos, contudo há dúvidas sobre o licenciamento
ambiental para as atuais empresas que estão se estabelecendo e as
já estabelecidas. As auditorias ambientais, estabelecidas por lei,
estão sendo cumpridas ? Há fiscalização dos agentes poluidores motivados
pelos estaleiros ? Qual a quantidade e qualidade de metais pesados
despejados na Baía de Guanabara ? Há medidas compensatórias previstas
?
As Indústrias de Sardinha estabelecidas em Niterói
estão em acordo com o definido pelos Termos de Ajustamento de Conduta
- TACs exigidos pelo Ministério Público ? E a validade das licenças
ambientais, estão em dia ? Quantas empresas estão operando com ecoeficiência
?
Quantas Empresas de Mineração estão em operação
no Município de Niterói ? Dispõem de licença ambiental, ou Planos
de Recuperação de Áreas Degradadas - PRADs ? Qual a área total de
destruição florestal ocasionada pela ação de pedreiras e saibreiras
? Há rios e nascentes em risco pela ação do rejeito mineral carreado
pelas chuvas ? Há indícios de desertificação ocasionado pela ação
descontrolada de empresas de mineração ? Existe alguma situada no
interior de áreas de proteção ambiental, além daquelas já identificadas
no interior do Parque Estadual da Serra da Tiririca ?
A Indústria Imobiliária de risco ambiental atualmente
avança sobre as áreas naturais protegidas baseada em frágil legislação
urbanística municipal (em evidente contradição legal com determinações
em nível federal e estadual) , tentando resguardar o direito de construção/edificação
em regiões florestadas. Condomínios como o Santo Antônio (Rio do Ouro),
Praias Oceânicas (Itaipu), Town House (Pendotiba) e outros previstos
para o Córrego dos Colibris (Serra da Tiririca), a Ponta de Jurujuba
e a orla da laguna de Itaipu indicam para a necessidade de reavaliação
dos valores de desenvolvimento urbano para a Cidade. São potenciais
motivadores da degradação ambiental "resguardados" por uma legislação
municipal em choque com os anseios dos niteroienses. Costumam ignorar
a necessidade de licenciamento ambiental junto a FEEMA e autorização
de corte de árvores nativas junto ao IEF e ao IBAMA. Qual será, por
exemplo, o destino final dos resíduos da construção civil ?
As ocupações irregulares avançam sobre todas as
áreas protegidas. Não respeitam as florestas, restingas, manguezais,
lagunas, rios, etc. São ativos depredadores do meio ambiente. Infelizmente
não existe nenhuma política pública em Niterói que contenha esse "tipo
de degradação". Qual é a ação real da Prefeitura de Niterói em "ordenar"
e controlar as construções em comunidades de baixa renda ? Existem
projetos de cidadania e educação ambiental nessas comunidades com
resultados favoráveis ao meio ambiente ?
Os postos de gasolina em Niterói estão adequados
à legislação ambiental ? Quantos dispõem de licenciamento ambiental
? Quantos estão agindo regularmente ? Quantos são agentes poluidores
com derramamento de óleos, graxas e combustível ? Há algum que esteja
contaminando rios e lagunas ? E o lençol freático estaria sob ameaça
?
Os cemitérios em Niterói dispõem de algum controle
ambiental ? Qual é o atual nível de carga de poluentes do subsolo
no entorno dos cemitérios ? Há risco de poluição hídrica no entorno
dos cemitérios ? Quantos cemitérios Niterói dispõe ?
Agenda 21 em Niterói é mera "peça de retórica".
Não bastasse as inúmeras e constantes omissões
de setores do Poder Público em definir soluções viáveis para a preservação
dos recursos naturais, ainda somos obrigados a conviver com a má fé
da administração municipal, que persiste, mesmo em meio a tantos focos
de ameaça ambiental, em não implantar o Conselho Municipal do Meio
Ambiente e dos Recursos Hídricos de Niterói - COMAN. Mesmo criado
por lei, regulamentado por decreto, e possuindo regimento interno
aprovado em Diário Oficial, o COMAN não consegue sensibilizar e mobilizar
o prefeito e seus três ilustres secretários municipais para assuntos
ambientais (além do titular da pasta, há dois sub-secretários, um
de Meio Ambiente e outro de Recursos Hídricos. Alguns ainda querem
criar mais uma "sub" de Recursos Pesqueiros.)
Em Niterói prevalece a impunidade e a insegurança
ambiental.
* Gerhard Sardo é ambientalista, jornalista, pós-graduando
em Análise e Avaliação Ambiental (PUC-Rio), coordenador da APEDEMA
Regional Leste, conselheiro titular no Conselho
Municipal do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Niterói - COMAN
e no Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, ex-integrante titular
da Comissão Pró-Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Niterói, 28/05/03.
Tel.(21) 2722-6020 / Cel.(21) 9999-4953
E-mail: gerhard.sardo@ig.com.br
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