10/02/2003
Assembléia na ABI constitui Comitê Rio Pela Paz e prepara manifestação contra a guerra
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Em assembléia realizada hoje (10/2) no auditório Belisário Souza, na
Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que contou com a participação dos
presidentes do PDT, Leonel Brizola, do PCB, Zuleide Faria de Melo, do PC do B-
RJ, Ana Rocha, do PDT-RJ, Carlos Lupi, e de parlamentares como a deputada
federal Jandira Feghali, deputada estadual Jurema Batista, e do vereador
Fernando Gusmão, foi criado o Comitê Rio Pela Paz e traçadas estratégias para
a realização de uma grande manifestação no próximo sábado, dia 15 de
fevereiro, às 15 horas, a partir do Leme, contra a anunciada guerra do
governo dos Estados Unidos contra o Iraque. O ato foi presidido pelo vice-
presidente da ABI, Henrique Miranda.

A presidente do Conselho de Administração da ABI, jornalista Ana Arruda
Callado, disse que “este é o primeiro passo; hoje, estamos unificando os
movimentos, o que é essencial, mas a passeata de Sábado precisa ser
gigantesca, para não ser ignorada”. Ela declarou que a ABI está à disposição
de todos os que estão na luta contra esta guerra, “que não é contra o Iraque,
mas contra todo o mundo e que pode chegar muito mais perto de nós do que se
imagina”.

União contra uma insanidade

O ex-governador Leonel Brizola lembrou que, pelos dois anos vividos nos
Estados Unidos, pode garantir que a guerra não é um pensamento do povo norte-
americano e tem apenas uma inovação, que é a tese do governo Bush de combate
ao terrorismo. “Vocês se recordam da luta contra o comunismo, que era
considerado um mal contra a humanidade? Pois, agora, a queda das torres de
Nova York deram esta nova motivação aos atos de guerra”.
“Eu tenho uma desconfiança sobre aquele episódio e vejo que há uma espécie de
proibição de falar sobre isso. Os atentados foram tão bem feitos, que tenho a
impressão de que foi planejado por eles próprios. Também por isso, temos que
nos levantar contra esta insanidade, contra esta covardia, que acaba tendo a
conivência da mídia, para justificar a guerra”. Para Brizola, mesmo que o
Iraque estivesse fazendo tudo de que é acusado, não há justificativa para um
ataque contra o seu povo.
Na realidade, afirma o dirigente pedetista, “trata-se de uma guerra podre, de
uma guerra de conquista, sem nenhuma causa humanitária, nobre, de um ato sem
igual na história da humanidade”. Ele afirmou que todo o PDT será mobilizado
contra mais esta tentativa de abuso de poder. Depois de dizer que estranha o
fato de o governo brasileiro não ter ainda se manifestado firmemente contra
os objetivos do governo dos Estados Unidos, Brizola manifestou que chegou a
hora de demonstrar que o povo brasileiro está ao lado da paz.

Entidades caladas

O advogado e ex-governador Nilo Batista considera a declaração de guerra dos
Estados Unidos ao Iraque um ato de arrogância e insensatez do presidente
norte-americano, George W. Bush, em um evidente sinal da decadência econômica
que afeta o país. Ele criticou as entidade que se dizem defensoras dos
direitos humanos em todo o mundo e estão caladas frente a arbitrariedades
como o governo norte-americano comete atualmente em Guantânamo, que se
transformou em um setor autorizado de tortura internacional, que tem levado
muitos prisioneiros feitos no Afganistão ao suicídio.
Na opinião do jurista, o governo Bush apropriou-se do discurso das entidades
de direitos humanos, em nome da defesa contra o terrorismo e as academias dos
Estados Unidos, da Europa e quase a totalidade das brasileiras dizem “amém”
a “esta nova forma de disfarçar esta violação à autodeterminação
Dos povos”. Ele alertou ainda que há riscos de que a recém criada Sociedade
Penal Internacional também acabe servindo a estes propósitos.
A deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ) comentou que o ideário de Bush prevê
um comando único no mundo nas áreas financeira, cultural, política e,
principalmente, bélica, perante qualquer força que se confronte ao capital
norte-americano. Ao lembrar o que o governo dos Estados Unidos fez no
Afganistão, na Líbia, na Palestina, sendo conivente com o governo israelense,
e pretende fazer no Iraque, ela questionou: “quem deu este direito aos
Estados Unidos, ao império norte-americano?”
Já a deputada estadual Jurema Batista (PT) declarou que é hora de quebrar o
silêncio, lembrando as manifestações da década de 80, quando era dito que “o
silêncio é cúmplice da violência”. Ao destacar que os meios de comunicação,
hoje, dão destaque ao individualismo, é preciso que forças como as igrejas
católicas e evangélicas também participem da manifestação de sábado. Alertou
que, para o Brasil, as principais conseqüências serão o aumento da fome e do
desemprego e que as mais afetadas serão as mulheres e seus filhos, pela
possibilidade de ficarem sem seus maridos e seus pais. Ao encerrar seu
pronunciamento, ela foi taxativa: “Bush tire a sua pata e respeite os povos
internacionais”.

Destaques

Em meio a diversos pronunciamentos, dois destaques foram dados à mensagem
enviada por Oscar Niemeyer, como conselheiro da ABI, e à manifestação do ator
Marcos Winter. O arquiteto, um dos idealizadores de Brasília, no recado lido
por Sabino Barbosa, afirma que “infelizmente não posso comparecer. Estou com
vocês contra a guerra, contra o Bush, contra tudo que ofender a dignidade do
ser humano, o Brasil e a dignidade do nosso povo”.
O ator destacou a importância da comunicação e da religiosidade em um momento
como o atual. Afirmou que o papel da imprensa e do jornalismo investigativo é
da maior importância, pois são eles que dão a informação verdadeira; já a
real religiosidade deve combater deuses que não existem e que só servem para
mantê-los à parte. Na sua opinião, os dois fatores são formas de tirar a
população da ignorância em que vive e que faz com que, atualmente, em todo o
mundo, haja mais escravos do que no tempo da escravatura.
Winter disse que é preciso que as manifestações em todo o mundo ganhem corpo
para evitar o primeiro dia, pois, no seu entender, a retaliação será
implacável, com muitos atos terroristas. Ele anunciou que, junto com outros
atores, escritores e jornalistas está criando uma entidade que pretende lutar
pelos direitos humanos no Brasil, incluindo aí até os crimes contra o meio
ambiente e a pedofilia.

Propostas para uma ação prática

Durante a reunião, foram apresentadas algumas propostas pelo plenário, para
uma ação prática, agora e após o início de uma possível guerra:

boicote ao consumo de produtos e serviços de empresas sediadas nos Estados
Unidos e nos países que lhe dão apoio;

boicote imediato ao consumo de combustíveis das empresas Texaco, Esso e
Shell, por ser claro que o objetivo principal da guerra é o domínio dos poços
de petróleo;

que, quando as primeiras bombas forem atiradas contra o Iraque, os sacerdotes
façam soar os sinos de suas igrejas por cinco minutos;

que os atletas suspendam suas competições, nacionais e internacionais, por
cinco minutos, como forma de protesto;

que os teatros suspendam suas representações para denunciar a guerra;

que os professores parem as aulas e discutam as causas e conseqüências do
conflito com seus alunos.


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