Por Gerhard Sardo*
Dia 29 de novembro o Parque Estadual da Serra da Tiririca completa
onze anos de criação. Seu nascimento foi registrado no Diário Oficial
do Estado do Rio de Janeiro através da publicação da lei estadual
nº 1.901/91.
Poucos, contudo, sabem sobre as histórias e os personagens que envolvem
esse emblemático parque florestal.
O primeiro personagem dessa história sem fim, com certeza, surgiu
em Maricá, quando enfrentava solitariamente, já no início da década
de oitenta, caçadores de animais silvestres e desmatadores. Tinha
personalidade forte e parecia não temer ameaças de morte. Geólogo
por formação e educador por paixão, Cláudio Martins deu origem à idéia
de criação do parque florestal quando fundou o Movimento Ecológico
de Itaipuaçu.
Oriundo de São Gonçalo, o biólogo Jorge Antônio Pontes desenvolvia
seus primeiros estudos sobre a fauna e flora na Serra da Tiririca
num momento em que poucos se expunham pela proteção da Mata Atlântica
em Niterói. Foi fundador do primeiro grupo organizado de estudos dos
ecossistemas na região.
Lendário em suas ações enquanto promotor de Justiça, João Batista
Petersen foi o terceiro personagem nessa história de muitas controvérsias.
Seu mérito foi a primeira iniciativa de Ação Cível Pública em defesa
da Serra da Tiririca, que pretendia, em 1986, anular um loteamento
ilegal em Niterói. Pouco mais de uma década após a investida jurídica,
finalmente a decisão da Justiça foi obtida favoravelmente ao meio
ambiente.
Após o alvoroço ocasionado em torno da discussão jurídica sobre os
mecanismos de uso e ocupação de terras na Serra da Tiririca, vários
líderes comunitários e ambientalistas movimentavam-se em busca de
uma solução comum para o crescimento urbano desenfreado sobre a floresta
nativa.
No início de 1989, outro personagem tentava impedir um desmatamento
no bairro Peixoto. Seu nome era Paulo Carvalho. Sua denúncia provocou
a primeira ação de fiscalização integrada de órgãos ambientais e sociedade
civil na região. Era o prenúncio de uma grande mobilização popular
que daria origem a mais representativa e poderosa coalizão de entidades
ecológicas de Niterói, Marica e São Gonçalo: a Frente de Defesa da
Serra da Tiririca.
A Frente de Defesa da Serra da Tiririca deu visibilidade política
a proposta de criação do parque florestal, sendo responsável por inúmeras
atividades públicas de conscientização da importância da Mata Atlântica.
No bojo das discussões de grupo, novos personagens destacavam-se,
como José Chacon, Alba Simon, Regina Rabello, Vagner Oliveira, Raimundo
Araújo Filho, Flávio Siqueira, Omar Serrano, Otávio Maffei, Mônica
Pontes, Giselda Candiotto, Paulo Bidegain, Werther Holzer, Mário Gabriel,
entre outros importantes ativistas ecológicos.
Personagem ingrato ao movimento ambiental, Moreira Franco, o então
governador do Estado do Rio de Janeiro chegou a receber uma minuta
de proposta de criação do parque florestal de representantes da Frente
de Defesa da Serra da Tiririca. Mas infelizmente o anteprojeto não
foi aproveitado.
No ano seguinte, em 1990, outro personagem surgia como interlocutor
das discussões em torno da Serra da Tiririca. Era o engenheiro florestal
Axel Grael. Agrupado a outros importantes ambientalistas, fundou o
Movimento de Cidadania Ecológica, entidade ecológica que apresentou
anteprojeto-de-lei que resultou na criação do Parque Estadual da Serra
da Tiririca, dando oportunidade a outros dois significativos personagens:
o deputado Carlos Minc e o jornalista Vilmar Berna. O primeiro foi
o autor da lei e o articulador político pela sua aprovação, e o segundo
ajustou a redação final da proposta.
Antes da aprovação da lei que estabelecia o parque florestal, e atendendo
a antiga reivindicação de ambientalistas, outro personagem concedia
a Serra da Tiririca, por meio de decreto, o status de Área de Preservação
Permanente. Seu nome era Jorge Roberto Silveira, prefeito de Niterói.
No mesmo ano, o Estado do Rio de Janeiro determina o tombamento da
Mata Atlântica localizada em sua área territorial.
Leonel Brizola, então governador do Estado do Rio de Janeiro, em 29
de novembro de 1991, transformou-se em importante personagem quando
sancionou a lei que criou o Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Dois anos depois, o mesmo personagem assinou o decreto estadual nº
18.598/93 que estabelecia os “limites provisórios” do
parque florestal.
O jornalista Roberto D´Ávila, então secretário estadual do Meio Ambiente,
foi um simbólico personagem quando determinou através da resolução
nº 72/93 a constituição da primeira Comissão Pró-Parque. O ato que
pretendia garantir a participação da sociedade civil na definição
dos limites definitivos não obteve resultados efetivos por evidente
desinteresse do órgão gestor do parque florestal.
O primeiro administrador do Parque Estadual da Serra da Tiririca foi
nomeado somente no ano de 1993. Seu nome era Walter Manhães. Logo
vieram outros personagens com a difícil missão de definir uma gestão
para o parque florestal, como a jornalista Laura França, o biólogo
Carlos Eduardo Seoane e, recentemente, o geógrafo Alex Figueiredo.
Durante os anos vindouros após a criação do Parque Estadual da Serra
da Tiririca, centenas de iniciativas da sociedade civil organizada
foram exaustivamente organizadas em busca da real implantação do parque
florestal, algumas obtendo resultados significativos para o meio ambiente,
como a suspensão da licença ambiental da Mineradora Inoã e a interdição
da saibreira Fernandes e Oliveira. Decisões contra a ação contínuaMIME-Version:
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de empreendimentos como aqueles motivados pelo Centro Evangelístico
Internacional e pelo loteamento Jardim Fazendinha ainda aguardam desfecho
junto a Justiça. Surpresas como o choque do avião Hércules C-130 da
Força Aérea Brasileira na Pedra do Elefante parecem não encontrar
qualquer solução para a indiferença com o bem comum.
Em iniciativa inédita até então, o advogado Evandro Sathler, outro
personagem expoente no contexto, redigiu e impetrou Ação Cível Pública
contra do Governo do Estado por omissão na implantação do Parque Estadual
da Serra da Tiririca. Sua iniciativa, que previa uma dezena de medidas
emergenciais em benefício do parque florestal, porém, não alcançou
seus objetivos, uma vez que apenas determinou ao Poder Público o cumprimento
das suas funções de rotina já estabelecidas em lei.
Atuando em processos investigativos que resultaram, por vezes, em
ações cíveis, outros personagens conquistaram participação ativa na
defesa da Serra da Tiririca, como a promotora de Justiça Adélia Barbosa
de Carvalho e os promotores de Justiça Marcelo Buhatem, Dennis Aceti
e Sávio Bittencourt. Infelizmente as ações do Ministério Público Estadual
têm encontrado imensas dificuldades junto a Justiça para fazer cumprir
a legislação ambiental, tornando quase nulo o resultado de suas investigações.
Com a reconstituição da Comissão Pró-Parque, em 1999, que coube ao
destacado personagem amante das montanhas André Ilha, então presidente
do IEF, outros personagens emergiram em meio às intermináveis discussões
teóricas, como o economista Sergio de Mattos, o engenheiro Luiz Eduardo
Amaral, o engenheiro Hilton Jordão, a costureira Jussara Cândido,
a arquiteta Andréa Pinto, o técnico ambiental João Batista Dias e
a engenheira Lúcia Regina Mendes. Após quase três anos de trabalhos
voluntários, foi definida e aprovada por ampla maioria a proposta
dos novos e definitivos limites do Parque Estadual da Serra a Tiririca.
A publicação, contudo, depende ainda da análise da assessoria da governadora
Benedita da Silva, que deverá encaminhar para aprovação da Assembléia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e posterior sanção da governadora
eleita Rosinha Garotinho.
Há pouco mais de uma semana, novos e antigos ativistas ecológicos
encontraram-se em Itacoatiara para formar o Conselho Consultivo do
Parque Estadual da Serra da Tiririca. Naquela ocasião o passado, o
presente e o futuro pareciam querer se mesclar. Novos personagens
surgirão.
* Gerhard Sardo é jornalista, pós-graduando em Análise e Avaliação
Ambiental (PUC-Rio), membro fundador da Frente de Defesa da Serra
da Tiririca, autor das denúncias que resultaram em ações judiciais
e processos administrativos contra a Mineradora Inoã, a saibreira
Fernandes & Oliveira, o Centro Evangelístico Internacional, o
loteamento Jardim Fazendinha, a Força Aérea Brasileira, condomínios
e grilheiros de terras no interior do parque florestal, ex-integrante
titular da Comissão Pró-Parque, ex-coordenador do Centro de Referência
de Justiça Ambiental e conselheiro titular no Conselho Municipal do
Meio Ambiente de Niterói e no Conselho Nacional do Meio Ambiente.
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