26/08/2002
ALCA
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Um pouco do Nafta para entender a ALCA
 
Em vigor desde 1994, o Nafta é um acordo firmado entre Estados Unidos, México e Canadá e serve de exemplo para demonstrar o que acontece quando países em situações econômicas, sociais e tecnológicas muito diferentes organizam um bloco de livre circulação de investimentos e mercadorias.
 
Depois de sete anos em vigor, segundo análise do Economic Policy Institute, de Washington, os resultados foram piores para o México, mas também trouxe derrotas para os trabalhadores estadunidenses. Empresas dos Estados Unidos fecharam e foram instalar-se no México, onde a mão-de-obra era mais barata e as leis trabalhistas mais “flexíveis”. Nos EUA, 766 mil postos de trabalho foram eliminados na indústria.
 
O maior estrago, entretanto, não foi causado pela instalação de fábricas no México – as chamadas maquiladoras, que são imunes às leis trabalhistas. Segundo a ONU, são as que mais empregam mão-de-obra infantil no planeta, colocando o país como campeão mundial da categoria: 5 milhões de crianças menores de 14 anos estão trabalhando. São as maquilas as únicas que, estatisticamente, trouxeram mais empregos. De 1999 à 2000, cresceram 13,4% e ocupam 1,3 milhão de pessoas. Essa indústria é hoje responsável por 47% do total das exportações mexicanas.
 
O salário dos mexicanos foi, de fato, o que mais encolheu após o Nafta. Em 1994, era em média US$ 2,10 por hora na indústria manufatureira, caindo para US$ 1,90 por hora em 1999. E apesar do trabalho informal – os chamados camelôs – ter aumentado, a renda individual caiu 40% em média, já que não é possível haver espaço nem mercado para tantos camelôs que foram demitidos do trabalho formal.
 
Nos primeiros três meses de vigência do Nafta, as exportações mexicanas cresceram 25%, mas suas importações aumentaram 73%. Ao invés das prometidas 600 mil vagas de emprego, ao final do primeiro trimestre havia 105.225 empregos a menos no país, segundo cifras oficiais.
 
Mesmo para o Canadá, mais próximo em desenvolvimento dos EUA, os resultados de um tratado de livre comércio foram discutíveis. O país, em 1988, fez um acordo bilateral com a Casa Branca. Esperavam-se na ocasião 500 mil empregos. Em 1993, quando os efeitos da integração comercial já eram claros, mais de 400 mil empregos haviam desaparecido
 
Os EUA, enquanto isso, comemoraram: as exportações de carro para o México cresceram cinco vezes em comparação com o mesmo período de 1993.
 
Ainda assim, o último relatório do Banco Mundial sobre o México recomenda a “flexibilização” de sua legislação trabalhista, para que possa “atrair mais investimentos”.
 
Fontes:
México em Transe, Igor Fuser, ed. Scritta, 1995.
Alca - quem ganha e quem perde
com o livre comércio das Américas,
Kjeld Jackobsen e Renato Martins,
ed. Perseu Abramo, 2002