24/09/2002
TRAGÉDIA DA SERRA DA TIRIRICA
Prezados Ambientalistas, Voluntários e Simpatizantes,
    Na próxima sexta-feira, dia 27/09/2002, chegaremos há um ano do acidente aéreo do Hércules C-130 da FAB sobre o Parque Estadual da Serra da Tiririca.
    Abaixo, resgato meu relato sobre aqueles momentos de dor, sofrimento e imensa tragédia humana e ambiental.
    Um forte abraço,
    Gerhard Sardo




TRAGÉDIA DA SERRA DA TIRIRICA


Por Gerhard Sardo*


    Dia 27 de setembro de 2001, quinta-feira, 12h15m ... momento de dúvidas. Dia chuvoso, encoberto por imensas nuvens e neblinas, repentinamente soou uma grande explosão ... súbito, uma trovoada que persistia ecoar pelo vale da Serra da Tiririca na região do bairro de Itaipuaçu. Momentos de anciosidade, nervosismo afloravam entre os moradores locais. Estavam todos atônitos com o que surgia entre a névoa ... uma grande fumaça negra sobre a floresta. Do outro lado da Pedra do Elefante, no bairro de Itacoatiara, havia sensação que acabara de cair uma bomba, após um estúpido deslocamento de ar que vinha do alto das montanhas. As casas trepidaram e os vidros das janelas estavam prontos a quebrar. 30 minutos depois do susto surgiram um, dois, três e quatro helicópteros de resgate. Parecia uma guerra em pleno Rio de Janeiro algumas semanas após o histórico ataque terrorista em Nova Yorque. Curiosos vagavam pelas ruas, e jovens voluntários seguiam em direção ao local para auxiliar as equipes de resgate. O Corpo de Bombeiros logo chegou. Foi o primeiro grupamento oficial de resgate a chegar junto ao local do acidente. A dúvida pairava sobre a identicação da aeronave ... seria um avião ou helicóptero ? Com apoio de montanhistas locais as equipes de resgate alcançaram os destroços do avião. Que avião ? Ninguém sabia dizer. No local, muitos destroços e corpos mutilados e carbonizados ... visceras humanas espalhadas de forma indescritível. Foi um momento de horror. Nínguém sabia o que fazer ... estavam todos sem ação. A área atingida pelo Hércules C-130 estava em chamas, com vários focos de incêndio pela floresta. Os destroços do avião cobriam toda a Pedra do Elefante. Na vertente para Itaipuaçu, na trilha principal e na vertente para Enseada do Bananal, bem próximo ao cume da Pedra da Tartaruga, percebía-se a dimensão do problema. Eram milhares de objetos, fuselagens e restos humanos espalhados pela densa vegetação. Uma cena comparável ao anúncio do holocausto. Alguns ficaram nervosos, outros chocados. Houve discussão ... Havia um clima de insegurança no local. Alguns tentavam chegar aos destroços do avião, quando foi notado o risco de desabamento nas encostas. Um amontoado do pedras soltas, solo encharcado e nevoeiro parecia indicar um novo desastre. Todos se afastaram das áreas de risco, O cheiro forte de combustível indicava a possibilidade de novas explosões ... o medo era inevitável. As equipes de reportagem se aproximaram. Uma hora depois as equipes da Aeronáutica chegaram ao topo da Serra da Tiririca. Evacuaram a região. Foram retirados do local todos os voluntários e integrantes do Corpo de Bombeiros. Agentes da Força Aérea Brasileira que chegavam sem parar. Dezenas de militares armados com fuzis cercaram a região. Interditaram as vias de acesso e a trilha principal. A sociedade civil foi afastada e não houve mais qualquer possibilidade de auxílio àqueles que demonstravam conhecer muito pouco a Serra da Tiririca. O resultado foram perdas de vidas humanas e degradação ambiental.
 
    * Gerhard Sardo é jornalista e ambientalista, membro da Frente de Defesa da Serra da Tiririca, voluntário como guia nas primeiras ações de resgate com o Corpo de Bombeiros e a Aeronáutica na área atingida pela queda do avião militar Hércules C-130.