Prezados
Ambientalistas, Voluntários e Simpatizantes,
Na próxima sexta-feira, dia 27/09/2002, chegaremos
há um ano do acidente aéreo do Hércules C-130 da FAB sobre o Parque
Estadual da Serra da Tiririca.
Abaixo, resgato meu relato sobre aqueles momentos
de dor, sofrimento e imensa tragédia humana e ambiental.
Um forte abraço,
Gerhard Sardo
TRAGÉDIA DA SERRA DA TIRIRICA
Por Gerhard Sardo*
Dia 27 de setembro de 2001, quinta-feira, 12h15m
... momento de dúvidas. Dia chuvoso, encoberto por imensas nuvens
e neblinas, repentinamente soou uma grande explosão ... súbito, uma
trovoada que persistia ecoar pelo vale da Serra da Tiririca na região
do bairro de Itaipuaçu. Momentos de anciosidade, nervosismo afloravam
entre os moradores locais. Estavam todos atônitos com o que surgia
entre a névoa ... uma grande fumaça negra sobre a floresta. Do outro
lado da Pedra do Elefante, no bairro de Itacoatiara, havia sensação
que acabara de cair uma bomba, após um estúpido deslocamento de ar
que vinha do alto das montanhas. As casas trepidaram e os vidros das
janelas estavam prontos a quebrar. 30 minutos depois do susto surgiram
um, dois, três e quatro helicópteros de resgate. Parecia uma guerra
em pleno Rio de Janeiro algumas semanas após o histórico ataque terrorista
em Nova Yorque. Curiosos vagavam pelas ruas, e jovens voluntários
seguiam em direção ao local para auxiliar as equipes de resgate. O
Corpo de Bombeiros logo chegou. Foi o primeiro grupamento oficial
de resgate a chegar junto ao local do acidente. A dúvida pairava sobre
a identicação da aeronave ... seria um avião ou helicóptero ? Com
apoio de montanhistas locais as equipes de resgate alcançaram os destroços
do avião. Que avião ? Ninguém sabia dizer. No local, muitos destroços
e corpos mutilados e carbonizados ... visceras humanas espalhadas
de forma indescritível. Foi um momento de horror. Nínguém sabia o
que fazer ... estavam todos sem ação. A área atingida pelo Hércules
C-130 estava em chamas, com vários focos de incêndio pela floresta.
Os destroços do avião cobriam toda a Pedra do Elefante. Na vertente
para Itaipuaçu, na trilha principal e na vertente para Enseada do
Bananal, bem próximo ao cume da Pedra da Tartaruga, percebía-se a
dimensão do problema. Eram milhares de objetos, fuselagens e restos
humanos espalhados pela densa vegetação. Uma cena comparável ao anúncio
do holocausto. Alguns ficaram nervosos, outros chocados. Houve discussão
... Havia um clima de insegurança no local. Alguns tentavam chegar
aos destroços do avião, quando foi notado o risco de desabamento nas
encostas. Um amontoado do pedras soltas, solo encharcado e nevoeiro
parecia indicar um novo desastre. Todos se afastaram das áreas de
risco, O cheiro forte de combustível indicava a possibilidade de novas
explosões ... o medo era inevitável. As equipes de reportagem se aproximaram.
Uma hora depois as equipes da Aeronáutica chegaram ao topo da Serra
da Tiririca. Evacuaram a região. Foram retirados do local todos os
voluntários e integrantes do Corpo de Bombeiros. Agentes da Força
Aérea Brasileira que chegavam sem parar. Dezenas de militares armados
com fuzis cercaram a região. Interditaram as vias de acesso e a trilha
principal. A sociedade civil foi afastada e não houve mais qualquer
possibilidade de auxílio àqueles que demonstravam conhecer muito pouco
a Serra da Tiririca. O resultado foram perdas de vidas humanas e degradação
ambiental.
* Gerhard Sardo é jornalista e ambientalista, membro
da Frente de Defesa da Serra da Tiririca, voluntário como guia nas
primeiras ações de resgate com o Corpo de Bombeiros e a Aeronáutica
na área atingida pela queda do avião militar Hércules C-130.
|