Por Gerhard Sardo*
Dividida em dois dias, a 68ª Reunião Ordinária
do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) teve início às 9h do
dia 4 de dezembro de 2002, no auditório da sede do IBAMA, em Brasília-DF.
Após a abertura da sessão pelo Ministro do Meio Ambiente, José Carlos
Carvalho, foram empossados seis novos conselheiros, apresentado a
ata da 67ª Reunião Ordinária, seguindo-se de informes pelos presentes.
Antes do inínio de leitura da ordem do dia, foram propostas alterações
na ordem de prioridade da pauta, destacando-se intervenção de representante
do Ministério dos Transportes quanto a necessidade de antecipação
de discussão sobre proposta de Moção que solicitava ao Ministro do
Meio Ambiente a "revogação da licença ambiental prévia da duplicação
da BR-116 - Manancial do Caçador". Atendido os pedidos oriundos do
plenário, foram analisadas sete propostas de resolução, sendo que
três foram aprovadas e quatro ficaram pendentes para ajuste de redação
junto às Câmaras Técnicas de origem em virtude de pedido de vistas.
As resoluções aprovadas, duas com pequenas alterações, providenciaram
"diretrizes para o licenciamento ambiental dos projetos de assentamentos
de reforma agrária, a "revisão da resolução nº 309/02" e o "calendário
de reuniões ordinárias do CONAMA para o ano de 2003". Superado o horário
do almoço, e atendendo a estratégia anteriormente definida entre o
Ministério do Meio Ambiente, o Ministério dos Transportes, a Casa
Civil, o DNIT e o IBAMA (segundo cópia de conteúdo de e-mail datado
de 03/12/02, onde é evidenciado a existência de um "plano A" e um
"plano B" para neutralizar intenção das ONGs ambientalistas), foram
apresentados extensos argumentos de defesa do projeto de duplicação
da Rodovia Régis Bittencourt/Serra do Cafezal por equipe técnica governamental
em contraposição aos questionamentos oferecidos pelo representante
da APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste). Ciente da "estratégia" desenvolvida
nos bastidores pela representante do Ministério dos Transportes, e
considerando o número inferior de votos que dispunha em plenário (em
virtude da decisão política da Casa Civil e do próprio Ministério
do Meio Ambiente em garantir a manutenção da licença prévia do empreendimento
ora questionado), o proponente da Moção retirou a proposta da ordem
de votação objetivando validar futuro questionamento junto ao CONAMA
(uma vez que não foi "julgado" pelo plenário o mérito da questão).
Curiosamente, o conselheiro Paulo Nogueira Neto manifestou-se contra
a aprovação da Moção, em evidente contradição ao interesse das ONGs
ambientalistas integrantes do Conselho Estadual de Meio Ambiente de
São Paulo. Na segunda ordem de votação, o plenário aprovou conteúdo
de proposta de Moção (que transformou-se em requerimento) que prevê
a criação de grupo de trabalho para averiguação denúncias de exploração
ilegal de madeira no stado do Pará, situação que exposto lideranças
da sociedade civil a atos de agressão e violência. Na terceira ordem
de votação foi aprovada resolução que estabeleceu a criação de grupo
de trabalho no âmbito da Câmara Técnica Permanente de Ecossistemas
para que em 180 dias seja apresentada proposta de regularização de
eventuais superposições entre terras indígenas e unidades de conservação.
Proposta de solicitação, por meio de Moção, à Prefeitura de Natal-RN
pela necessidade de licenciamento ambiental e elaboração de EIA/RIMA
para realização de eventos com impacto sonoro em áreas públicas foi
retirado. Na quinta ordem de votação, atendendo a proposta do representante
da APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste), foi aprovado por 32 votos a favor,
nenhum contra e uma abstenção, com o apoio manifesto do Ministro do
Meio Ambiente, Moção aos órgãos públicos signatários do Termo de Ajustamento
de Conduta (TAC) da Ilha Grande solicitando o cumprimento das suas
clausulas contratuais. Moção solicitando ao IBAMA e à Polícia Federal
a desocupação de áreas de manguezais ilegalmente ocupadas por empreendimentos
de carcinicultura, bem como a adoção de medidas legais contra os infratores,
foi aprovada na sexta ordem de votação. Em seguida foi aprovada Moção
solicitando ao INCRA a paralisação imediata de empreendimento denominado
Assentamento Rural Laranjeiras na Mata Escura, em Minas Gerais, uma
vez que a região está localizada em área florestada (protegida por
lei) de estudo para criação de Parque Nacional. Após intenso debate
entre o representante do Ministério da Defesa e o representante da
APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste), a proposta de Moção ao presidente
da República que solicitava alteração no decreto federal nº 4.411/02
(que define a atuação das Forças Armadas e da Polícia Federal nas
unidades de conservação), foi desaprovada pelo plenário com 9 votos
a favor, 19 contra e 2 abstenções. Ainda no primeiro dia de debates,
foi solicitado ao plenário deliberação autorizativa de Termo de Parceria
entre a União (via MMA) e a OSCIP Coalizão Florestas para a execução
do subprograma Projetos Demonstrativos - PDA resultantes de cooperação
financeira e técnica com as instituições alemães KFW e GTZ, sendo,
contudo, postergada a decisão por pedido de vistas.
No segundo dia de reunião, iniciada com uma exposição
digital sobre os novos processos de licenciamento ambiental on-line
em nível federal, foi levado à plenário proposta de Moção recomendando
ao Poder Executivo federal a manutenão de subsídio ao gás como alternativa
à extração e destruição de florestas nativas para uso doméstico, a
qual foi aprovada. Motivado pela Consultoria Jurídica do CONAMA, o
Ministro do Meio Ambiente resgatou o debate em torno de alterações
necessárias para a aprovação do novo Regimento Interno do referido
fórum, decisão que foi refutada pelo plenário uma vez que os pormenores
do texto emquestão já tinham sido exaustivamente avaliado por Câmara
Técnica específica e aprovado na 40ª Reunião Extraordinária do CONAMA.
Contudo, foram admitidos três pequenas alterações, sendo uma que cria
uma vaga permanente para o setor florestal enquanto representante
de segmento empresarial. Em caráter de urgência foi aprovada Moção
ao Ministro da Casa Civil solicitando a retirada do Congresso Nacional
do projeto de lei nº 6.952/02 que prevê a criação de "Sistema Nacional
de Saúde Ambiental" em evidente sobreposição às atribuições legais
da Política Nacional do Meio Ambiente (criada pela lei federal nº
6.938/81). Também em caráter de urgência, a pedido do representante
da APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste), com o apoio dos representantes
das ONGs CEA (Região Sul), ÁGUA VIVA (Região Sul), AMDA (Região Sudeste),
ASPOAM (Região Nordeste), FURPA (Região Nordeste), ARGONAUTAS (Região
Norte), ISA (Nacional), Populações Tradicionais, Planeta Verde (indicado
pelo presidente da República), e dos representantes governamentais
da ABEMA (entidade que representa todos os secretários estaduais de
Meio Ambiente), do Governo do Rio Grande d Sul e do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, foi aprovada por 39 votos a
favor, 8 contra e nenhuma abstenção, Moção ao presidente do Tribunal
de Justiça do Estado do Rio de Janeiro solicitando acatar Ação Cível
Pública mpetrada pelo Ministério Público Estadual que requer a desativação
definitiva do vazadouro de lixo do Morro do Céu, no município de Niterói-RJ.
Avaliada em meio às discussões acaloradas, foi aprovada proposta
de criação de grupo de trabalho a fim de definir medidas de compensaão
ambiental e suas consequências nas diversas esferas do governo federal.
Sem mais o que deliberar pelo plenário, o Ministro do Meio Ambiente
ofereceu palavra livre aos conselheiros, que, em seus vários pronunciamentos,
manifestaram seus elogios a administração ativa, transparente, democrática
e participativa desenvolvida no CONAMA por seu presidente (o Ministro
do Meio Ambiente), secretário executivo, assessores e equipes técnica
e operacional. Terminada a despedida do Ministro do Meio Ambiente
a frente dos trabalhos do CONAMA, a reunião foi encerrada às 14h do
dia 05/12/02.
Após os trabalhos no CONAMA, uma comissão formada
por representantes das ONGs APEDEMA/RJ (Região Sudeste), CEA (Região
Sul), ÁGUA VIVA ((Região Sul) e ASPOAM (Região Nordeste) participaram
de audiência com a senadora Marina Silva (provável titular do Ministério
do Meio Ambiente no governo Lula/PT) com o propósito de garantir o
reconhecimento e fortalecimento da sociedade civil junto ao CONAMA,
o FNMA, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos e a Agência Nacional
de Água, e outros fóruns que vierem a ser criados na esfera federal.
Na ocasião, o representante da APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste) entregou
em mãos da senadora Marina Silva dossiê elaborado pelo CODIG sobre
atual situação de descaso de autoridades públicas com os prazos estabelecidos
pelo TAC da Ilha Grande. A senadora Marina Silva colocou-se à disposição
das ONGs ambientalistas no CONAMA para trabalhar em ações conjuntas
de defesa do meio ambiente.
Este é o relatório.
Niterói-RJ, 06/12/02.
* Gerhard Sardo é jornalista,
pós-graduando em Análise e Avaliação Ambiental (PUC-Rio) e representante
da APEDEMA/RJ (ONGs Região Sudeste) no Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA). |