06/11/2002
Animais
Por Lanna Green
Maricá, 04/09/2002

Estava caminhando no centro da cidade quando ele passou
apressadamente por mim. A imagem era tão triste que
fiquei com um nó na garganta: um cachorro vira-lata com
uma das orelhas arrancadas. O ferimento era recente, mas
parecia estancado. O que me deixou chocada foi a forma
como aquilo o incomodava. Ele precisava andar com a
cabeça inclinada, protegendo o ouvido do vento.

Naquele momento, eu me lembrei de quando era criança e
tinha dores de ouvido. Precisava colocar um algodão para
que o ar frio não me incomodasse. E ali, no momento em
que olhei para o bicho, as lembranças daquelas dores me
fizeram parar por alguns segundos.

Se tivesse pensado rápido, com certeza, eu teria
conseguido acompanhar o animal antes que ele
desaparecesse. Mas perdi muito tempo pensando: "Coitado
do cachorro, coitado do cachorro, coitado do cachorro".

Uma senhora que passava ao lado e acompanhou meu
lamento, fez um comentário dispensável: "Vai ver ele tem
lepra". Em seu tom estava implícito o pensamento de que
os cães leprosos não precisam de ajuda. Mas aquilo não
era doença. Percebi que o ferimento fora conseqüência de
uma briga de rua com outro cachorro. Talvez uma disputa
pela escassa comida.

Quando me recuperei do choque, peguei minha bicicleta e
percorri algumas ruas para tentar encontrar o bichinho.
Queria levá-lo no veterinário para um curativo, mas não
consegui encontrá-lo.

Voltei para casa pedalando devagar. Acabei chorando. Eu
desejei que aquele animal estivesse morto para não estar
passando por aquilo. E, pela primeira vez, comecei a
pensar na morte como uma situação de refrigério para as
dores.

Como não conseguia encontrar o bichinho - que apelidei
de Van Gogh por motivo óbvio - eu comecei a falar com
Deus para que, de alguma forma, o sofrimento daquela
criatura inocente fosse aliviado.

Eu acreditei infantilmente e com todas as minhas forças
em que Deus iria mandar alguém para cuidar de Van Gogh.
E, enquanto falava com Deus, um outro pensamento me
ocorreu: eu nunca seria uma atéia. Simplesmente porque
eu preciso acreditar que há um ser onipotente na
retaguarda, fazendo tudo aquilo que não sou capaz de
fazer.

Lanna Green