A velhinha contrabandista
Veríssimo – O Globo 19/03/2002
Todos conhecem a história da velhinha
contrabandista. Todos os dias uma velhinha atravessava a ponte
entre dois países, de bicicleta e carregando uma bolsa. E todos
os dias era revistada pelos guardas da fronteira, à procura de
contrabando. Os guardas tinham certeza que a velhinha era contrabandista,
mas revistavam a velhinha, revistavam a sua bolsa, e nunca encontravam
nada. Nada. Todos os dias a mesma coisa: nada. Até que um dia
um dos guardas decidiu seguir a velhinha, para flagrá-la vendendo
a muamba, e ficar sabendo o que ela contrabandeava e, principalmente,
como. E seguiu a velhinha até o seu próspero comércio de bicicletas
e bolsas.
Como todas as fábulas, esta traz
uma lição, só nos cabendo descobrir qual. Significa que quem se
concentra no mal aparentemente disfarçado descuida do mal disfarçado
de aparente, ou que muita atenção ao detalhe atrapalha a percepção
do todo, ou que o hábito de só pensar o óbvio é a pior forma de
distração. No Brasil, temos o hábito de procurar e nos indignar
com o escândalo menor — por exemplo, os fotogênicos milhão
e trezentos no cofre dos Murad — e deixar passar o escândalo
maior, ou o uso do dinheiro público para lucro privado e proveito
político, que inclui desde privatizações subsidiadas pelo Estado
e a benemerência com bancos falidos até espionagem e contra-espionagem
com fins eleitoreiros, sem falar no condominato com as "oligarquias
corruptas do Norte e Nordeste" que só se tornaram reprováveis
quando se tornaram politicamente inconvenientes. Isto é o banal,
é o corriqueiro, é a velhinha passando de bicicleta pela ponte
todos os dias. A rotina da corrupção que ninguém chama pelo nome
se tornou tão rotineira, de uns tempos para cá, que podem fazer
uma campanha eleitoral como essa, paga pelo banco oficial do país,
de elogio aos primeiros oito anos dos anunciados 20 que o PSDB
precisa — uma espécie de resumo apoteótico da desfaçatez
dominante — sem que o TSE se manifeste ou alguém proteste,
fora os chatos de sempre. Afinal, pra que perturbar a vidinha
da velhinha, que só está fazendo o que sempre fez?