19/03/2002
Recebido de Sergio Mesquita - mesquita@redebrasil.tv.br
A velhinha contrabandista

A velhinha contrabandista

Veríssimo – O Globo 19/03/2002

Todos conhecem a história da velhinha contrabandista. Todos os dias uma velhinha atravessava a ponte entre dois países, de bicicleta e carregando uma bolsa. E todos os dias era revistada pelos guardas da fronteira, à procura de contrabando. Os guardas tinham certeza que a velhinha era contrabandista, mas revistavam a velhinha, revistavam a sua bolsa, e nunca encontravam nada. Nada. Todos os dias a mesma coisa: nada. Até que um dia um dos guardas decidiu seguir a velhinha, para flagrá-la vendendo a muamba, e ficar sabendo o que ela contrabandeava e, principalmente, como. E seguiu a velhinha até o seu próspero comércio de bicicletas e bolsas.

Como todas as fábulas, esta traz uma lição, só nos cabendo descobrir qual. Significa que quem se concentra no mal aparentemente disfarçado descuida do mal disfarçado de aparente, ou que muita atenção ao detalhe atrapalha a percepção do todo, ou que o hábito de só pensar o óbvio é a pior forma de distração. No Brasil, temos o hábito de procurar e nos indignar com o escândalo menor — por exemplo, os fotogênicos milhão e trezentos no cofre dos Murad — e deixar passar o escândalo maior, ou o uso do dinheiro público para lucro privado e proveito político, que inclui desde privatizações subsidiadas pelo Estado e a benemerência com bancos falidos até espionagem e contra-espionagem com fins eleitoreiros, sem falar no condominato com as "oligarquias corruptas do Norte e Nordeste" que só se tornaram reprováveis quando se tornaram politicamente inconvenientes. Isto é o banal, é o corriqueiro, é a velhinha passando de bicicleta pela ponte todos os dias. A rotina da corrupção que ninguém chama pelo nome se tornou tão rotineira, de uns tempos para cá, que podem fazer uma campanha eleitoral como essa, paga pelo banco oficial do país, de elogio aos primeiros oito anos dos anunciados 20 que o PSDB precisa — uma espécie de resumo apoteótico da desfaçatez dominante — sem que o TSE se manifeste ou alguém proteste, fora os chatos de sempre. Afinal, pra que perturbar a vidinha da velhinha, que só está fazendo o que sempre fez?