27/05/2002

1° Lugar do Concurso da Academia de Ciências e Letras de Maricá, em parceria com a Revista Maricá Já


MARICÁ, CONTOS E CASOS

UMA ÁRVORE QUE SORRIA

 
 

                                                                                                  Roberto Gimenez
 
      Poderia  até estar postergando, em querer trocar uma verdadeira estória, em uma história verdadeira, mas as lembranças que tenho são lá um tanto quanto embaraçosas.
 
      Faz aproximadamente umas seis décadas, mais ou menos 65 anos para ser mais preciso, que conheci uma velhinha de 90 anos que morava em São José do Imbassay na antiga Vila de Maricá, dos Jesuítas e colonizadores. Contava ela sempre rodeada de crianças, jovens e até mesmo, gente de mais idade, que quando mais moça morava em uma fazenda nas bandas de São José, e que lá havia uma Paineira gigantesca, que quando era noite de lua cheia, ela começava a sorrir, e o seu riso era ouvido por mais de 1 km, e que ninguém ousava em sair de dentro de casa para sequer ver como ela sorria.
 
     Certa vez, conta ela, que resolveu ir até a janela, quando começaram os risos, e teve uma grande surpresa, pois os risos não eram simplesmente da Paineira, mas sim em função do que aquela majestosa  árvore assistia aos seus pés e em seu redor. Havia coelhos, sapos, corujas, caramujos e uma infinidade de seres que brincavam embaixo de seus galhos protetores, e em torno de seu tronco espetacular. Brincavam de roda, pulavam amarelinha, brincavam de anel e todas aquelas brincadeiras que brincávamos quando éramos crianças.
 
  Os risos daquela árvore formidável, era em função de quando chegava a vez do sapo pular amarelinha. Ele, quando  pulava, caía de pernas para o ar, provocando risos quase que sufocantes naquela magnífica criatura de Deus. Não sei porque só o sapo provocava tantos risos a ela. E fiquei observando por umas 2 horas aquelas brincadeiras, sem entender nada, e muito apavorado em ver bichinhos brincando, e uma árvore sorrindo. 
 
     Logo tudo parou, e voltou ao normal, não se via mais os bichinhos, pois a lua no seu ciclo, já havia passado bastante em direção ao horizonte. Voltei para dentro de casa e fui dormir.
 
     No dia seguinte bem cedo, fui ao local, embaixo da árvore, ver o que havia e não encontrei nada, tudo normal. E as crianças inquietas querendo saber se a Paineira ainda estava rindo, se o sapo ainda continuava em baixo tentando pular amarelinha e eu respondia:
__ Vamos esperar agora até que a lua volte cheia para continuarmos a contar sobre a  “Paineira que sorria”.
__ Ah!!! mas quanto tempo vamos esperar?
__ Agora, só mês que vem, quando mudar a fase da lua.
E todos foram para suas casas de novo.
 
     Os dias que se seguiam eram sempre dolorosos. Um trabalho ainda quase escravo, pelos coronéis donos da fazenda, que queriam sempre que trabalhássemos cada vez  mais, sem se dar conta de que éramos também humanos e que precisávamos de descanso. Mas de nada adiantava, eram os Senhores Feudais, e não tínhamos muita chance de sermos atendidos. Mas em contra partida, ficava alegre dentro do meu peito, em saber, que no mês seguinte lá estaria eu, se ainda estivesse viva para dar continuidade as minhas estórias, e com isso ia resistindo aquele trabalho penoso que sugava alguns anos de nossas vidas, mas que eu encarava com resignação.
 
_ Para mim, conta ela, era importante que eu fizesse um seriado de minha estória, pois só assim estaria em condições de continuar vivendo, sabendo que eu   estava causando alegrias a uma infinidade de crianças, jovens e adultos, que sem saberem estavam dilatando minha vida, sempre em mais um mês, quando viria o outro capitulo, com a mudança da lua cheia. E eu me sentia muito importante, indispensável e também muito avó, ensinando e educando aos mais jovens com carinho e sabedoria para que um dia eles também seguissem meus exemplos com seus filhos.Na noite seguinte estava ela em seu “barraco de pau-a-pique” quando foi chamada pelas crianças. Havia aproximadamente 15 crianças entre jovens e adultos querendo que ela continuasse a estória da “Paineira”. Ela então veio a porta e falou para eles que a estória das “Paineira” só poderia ser contada no dia da lua cheia.
 
  __ Ah!! Que pena! A gente queria tanto saber o final... disse as crianças.
 __ Mas não fiquem tristes, vou contar para vocês a estória da “subida do cala a boca”, tá bem assim? Esta pode ser contada sem a luz cheia é até mais propício sem lua. Bem, vamos lá:
_  Era uma vez num dia muito chuvoso quando Seu Manoel e Dona. Josefina que eram casados, resolveram sair da Vila de Maricá, para ir até o Rio D’ouro, com sua carroça para buscar coisas que havia ganhado de parentes de sua esposa. O tempo continuava chuvoso, mas lá pelas 15 horas resolveram partir em direção ao seu destino. A carroça não desenvolvia muito bem, pois o animal que a estava puxando já era um pouco velho, mas mesmo assim continuavam devagar. Ao chegar próximo à “subida do cala a boca” que fica depois de Inoã a Dona Josefina notou que o animal estava parando, parando e parou. A carroça de Seu Manoel, com o cavalo velho, havia emperrado e não se mexia por nada desse mundo. Seu Manoel já estava preocupado com sua esposa Dna Josefina, que estava toda molhada e morria de frio. Era uma situação delicada; Seu Manoel puxava o cavalo pelo queixo e nada... Dava palmadas de leve no seu lombo e nada... Era de fato uma situação difícil, pois já estava anoitecendo e eles não conseguiam sair do lugar. De repente, Dna Josefina teve uma idéia e falou:
 __ Meu marido, porque você não tenta falar com o cavalo, com palavras carinhosas?
__ Ora mulher... falar com o cavalo???
__ É, quem sabe?
__ Pois bem, vamos tentar... Cavalinho, bonitinho, molhadinho, cansadinho, será que você não poderia andar que é prá gente sair daqui, pois a chuva está aumentando e já está ficando muito tarde? Hein, cavalinho? Porque você não quer andar? Está machucado ou está cansado? Responda, por favor...
E nada...
De repente, quando seu Manoel já estava desistindo, ouviu alguma coisa diferente:
__ Dona Josefina, Dona Josefina, porque não desce da carroça e vem ficar com Seu Manoel aqui perto de mim?
O cavalo havia falado!! Dona Josefina desceu rápido da carroça e ficaram os dois olhando para o cavalo.
__ Não acredito Josefina!!
__ Nem eu Manoel, mas é verdade, o cavalo falou!!
__ Porque vocês estão tão surpresos?? Disse o cavalo.
__ Vocês nunca falam com a gente, se falassem com carinho teriam sempre respostas. Que sirva de lição para vocês. O problema é o seguinte: Não podemos fazer muito barulho, pois os ladrões ficam acampados lá dentro da mata e quando escutam qualquer barulho eles vêm até aqui a beira da trilha para assaltar quem está passando.
__ Mas como você, um cavalo, sabe disso? Perguntou Seu Manoel.
__ O Sr. sabe que já sou um cavalo bastante velho e que muito antes de pertencer ao Sr., fui propriedade de tropeiros e já naqueles tempos eles contavam que só se passava por aqui em total silêncio para não chamar a atenção dos ladrões, portanto, este nome : “Subida do cala a boca”. E vocês não notaram, mas as rodas da carroça que estou puxando estão fazendo muito barulho e fatalmente vai chamar  a atenção dos ladrões, por isto é necessário que se ponha um pouco mais de graxa no eixo para parar o barulho e facilitar para que eu puxe com mior tranquilidade, pois também fico cansado !
      E assim foi feito.
      Seguiram viagem.
 
      Uma semana depois, com a volta do Sr. Manoel e sua esposa à “Vila de Maricá”, descarregou a carroça e deu banho no cavalo velho. Enquanto banhava o animal, Seu Manoel perguntou:
__ Cavalinho, você que é um animal, e que fala, diga-me uma coisa; o que você sabe a respeito de uma árvore gigante que tem na fazenda vizinha, e que uma vez por mês na lua cheia fica sorrindo, fazendo tanto barulho que causa medo a todo mundo?
__ Medo que nada.. ela fica sorrindo, porque  adora ver a brincadeira dos bichinhos que se reúnem embaixo de sua copa.
__ Mas por que ela ri tanto? Nervoso ou alegria?
__ Nada disso, ela ri muito só quando a sapo vai pular “amarelinha”.
__ Mas, porque?
__ É porque o sapo tem quatro pernas e a “amarelinha” é para ser pulada com duas pernas, aí o sapo fica todo enrolado e acaba caindo de barriga para cima e a “Paineira” morre de tanto rir!!
__ Agora crianças...está na hora de dormir. Vamos esperar a lua cheira que eu vou contar mais um pedaço da estória da Paineira. Durmam com Deus! E não se esqueçam de tratar os animais e as pessoas com carinho, pois só podemos ter respostas sempre do que perguntamos, com carinho e ternura.
__ Boa noite, vovó!
 
E foram todos para as suas casas felizes por terem ouvido mais uma historinha da vovó de quem tanto gostavam.
 
 Os dias passavam muito depressa e as crianças, todos os dias que viam a velhinha, lembravam-na que já havia passado tantos dias. Isto, para ela, era uma verdadeira alegria, pois, cada vez mais, tinha certeza de que suas histórias estavam agradando não só a meninada como também aos adultos que ficavam impacientes de esperar, mas não deixavam perceber.
 No dia seguinte, a manhã começou com uma chuva fina e persistente e a maioria das crianças ficaram em suas casas em companhia dos irmãos maiores, enquanto seus pais saiam para a lavoura, para a labuta do dia a dia. Mas, Pedrinho, que era filho de um dos colonos, que morava mais próximo a casa da vovó sentiu a sua falta, pois, todos os dias lá estava ela com sua enxada nos ombros indo em direção a lavoura. Botou um agasalho sobre os ombros e foi a casa dela para ver o que estava acontecendo. Bateu na porta quatro vezes e chamava:
 
 __ Vovó!! Vovó!! Já acordou?
 
E não obteve nenhuma resposta. O menino sem entender, e um pouco assustado, viu que não era normal a vovó ficar dormindo até àquela hora, pois ela acordava sempre muito cedo. Resolveu chamar o irmão mais velho e voltaram à casa dela. Tornaram a chamar, e da mesma forma, ninguém atendia. Decidiram então, abrir a porta e entrar. Qual não foi a surpresa quando os meninos entraram e se depararam com a vovó deitada em sua cama quentinha, com um sorriso nos lábios. Falou então, baixinho:
 
__ Sentem-se aí na beira da cama, meninos, porque hoje a vovó está muito cansada e vai precisar que vocês me ajudem a levantar.
 
Os dois meninos, então, seguraram a vovó pelos braços e a levantaram da cama com um pouco de sacrifício.
 
__ A vovó hoje está um pouco adoentada e não vai poder ir para a lavoura. Avisa ao Coronel, por favor, meus filhos. Vou fazer um chá de ervas para ver se melhoro um pouco, depois,  me deito de novo...
 
O irmão do menino que ficou no barraco, perguntou a vovó se não iria mais contar a história, pois só faltava uma semana para a lua cheira chegar. Vovó sorriu e  respondeu:
 
__A vovó vai contar sim meu filho, até lá já estarei boa. Vá agora para casa, pois assim que eu melhorar vou lá... ter com seus pais.
 
 No dia seguinte, a chuva já havia passado e o sol brilhava no horizonte e os meninos, preocupados, estavam da janela vendo se a vovó saía com a enxada nos ombros para trabalhar. Lá estava ela, saindo sempre sorridente. Deu uma paradinha para falar com as crianças e seguiu em direção a lavoura com os passos cambaleantes, devido a idade. As crianças ficaram felizes, saíram de suas casas e foram correndo avisar as outras que haveria história, pois a vovó já estava boa. Foi um delírio só,  faziam  uma algazarra frenética, com muita alegria, em saber que haveria mais um capítulo da  “Paineira que sorria”, ainda bem!
 
 A semana passou como por encanto. A expectativa era grande não só por parte da criançada, mas também pelos jovens e os mais idosos que não paravam de perguntar a que horas iria começar a historinha da vovó. A mesma de sempre, logo que a lua surgir. E com a pontualidade daquela que aprendeu com os anos, a chegar bem cedo aos seus compromissos, ao surgir a lua cheia atrás do morro, lá estava a vovó com seu vestido de chita bem comprido e seus chinelos pretos, já rodeada por muita gente: crianças, jovens, adultos e até mesmo o capataz, que gostava muito dela. Aí então a vovó começou:
 
__... então, o sapo pulava mais uma vez e não conseguia abrir um pé para cada lado na “amarelinha” e caía todo esparramado, com a barriga branca virada para cima.
Começavam então os risos estridentes:
__ Quá! Quá! Quá!
__ Desta vez o sapo se levantou zangado, ficou muito bravo, dizendo:
__ “Porque você só ri de mim?  Está me achando um palhaço de circo ou um desajeitado para pular  “amarelinha”? Responda, sua “Paineira escandalosa”!
 
__ Não é nada pessoal Sr. Sapo, é que eu nunca tinha visto nestes meus 200 anos de vida ninguém pular “amarelinha” com quatro pernas! Não fique zangado não! Em compensação, você é o único que me faz rir e que me dá alegrias. Tantas, que não consigo me controlar quando você pula “amarelinha”. Já o amigo Caramujo, me dá sono de ver ele andar, é muito lento, mas nem por isso deixo de apreciá-lo quando brinca de esconde-esconde, recolhendo seu corpo para dentro da concha e, esquecendo a brincadeira, vai dormir!
 
__A comadre Coruja nem pisca, quando brinca de “jogar sério”, é sempre a vencedora. O velho gambá, chiiii ..., este é uma tragédia! Quando vai brincar, ninguém agüenta o cheiro que solta, mas mesmo assim, fico muito contente em assistir e abrigá-lo também, embaixo de minha copa.
 
__ É por tudo isto, Sr. Sapo, que fico muito contente só em assistir as suas brincadeiras. Você não sabe com que ansiedade eu espero a lua cheia a cada mês, dizia a vovó.
 E continuavam as explicações da “Paineira”, até que uma nuvem escura encobriu a lua cheia. Os bichinhos ficaram assustados sem saber o que estava acontecendo, quando a amiga Paineira falou:
__ Não fiquem assustados, que isso já vai passar. E os amiguinhos ficaram mais calmos.
 
 Neste dia, os moradores da redondeza estranharam, porque não ouviram os risos estridentes, pois não sabiam que nesta noite a Paineira reservou, para explicar ao sapo porque ria tanto, quando ele pulava “amarelinha”! Mas o pior ainda estava por acontecer. Chegaram na fazenda vizinha, novos coronéis que ficaram muito interessados na fazenda. da “Paineira”. Fizeram logo uma proposta para comprá-la, oferecendo também algumas máquinas e equipamentos de cortar lenha para fazer carvão, que era tão importante na época, quanto a cana de açúcar, o café, o sal, o milho, pois era muito bem aceito pelos tropeiros que compravam todo o tipo de mercadorias para vender.
 
 E aí, meu filho, começou a terrível história dos homens que queriam comprar a fazenda e cortar madeira para fazer carvão para comercializar. Foi uma tristeza! Quando se depararam com a gigantesca “Paineira”, os olhos dos coronéis brilharam como duas brasas de fogo, gananciosos, pois já calculavam como seria rentável a madeira daquela “magnífica árvore”.
 
 Eles não sabiam que a “Paineira” falava e conversava com os animais que habitavam a mata vizinha, e mesmo que soubessem, não dariam a menor atenção, pois já estavam determinados a derrubar a Paineira, para transformá-la em carvão, para ser comercializada com os tropeiros que compravam de tudo.
 
Começou uma verdadeira batalha entre coronéis que queriam comprar a fazenda da “Paineira” e as pessoas que residiam nas redondezas e que apreciavam sua sombra e os ninhos de pássaros que ali se instalavam, por sentirem confiança em seus galhos fortes e protetores.
 
 Além das crianças, jovens e adultos já estavam se acostumando com seus risos e perdendo o medo devido as estórias que  vovó contava nas noites de lua cheia. Mas de nada adiantava, eles estavam determinados a comprar a fazenda e acima de tudo derrubar nossa fonte de alegrias e sonhos.
 
O que seria de todos nós, sem aquela árvore, que nos dava sombra, alegrias e soltava seus pêlos prateados que nos servia para fazer travesseiros macios para dormimos? Estava difícil, e a “majestosa árvore” nem se manifestava, pois ela só falava em noites de lua cheia com os animais e não tínhamos conhecimento de ninguém que havia conversado com ela, mesmo em noite de lua cheia.
 
 No dia seguinte, as crianças e até mesmo o capataz, se reuniram e logo após vovó haver chegado da lavoura, depois de  mais um  dia de trabalho, mesmo cansada, nem esperaram, foram logo perguntando para ela:
 
__ Vovó!  Vovó! Como vai ficar a situação da nossa árvore?
 
Eles diziam “nossa”, pois já se consideravam os verdadeiros donos da Paineira, tendo em vista que já conheciam parte de suas estórias, contadas pela vovó.
 
__ Meus filhos, fiquem tranqüilos, vamos ter fé em Deus e vamos pedir para que Ele conserve a “árvore” intacta, sem que a derrubem.
 
__ Mas como vovó? Eles já estão quase comprando a fazenda, e a primeira coisa que vão fazer quando isso acontecer é derrubá-la para fazer carvão!
 
__ Vamos ter fé meus filhos. Deus é o Senhor de todas as coisas e acredito que não vai deixar esta de lado. Vamos aguardar o novo ciclo da lua, pois ainda, com certeza, teremos mais capítulos para contar. Fiquem tranqüilos!
 
Vovó falava com tanta segurança, que era impossível deixar de acreditar em suas palavras:
 __ Agora deixa a vovó descansar, pois hoje, foi um dia de trabalho muito árduo!
__ Boa noite, vovó.
__ Boa noite, meus filhos, durmam com Deus.
 
Vovó entrou para seu casebre muito preocupada, mas sem deixar que as crianças percebessem.
__ Porque será que eles querem derrubar logo a Paineira. Tem tantas árvores aí que poderiam servir tranqüilamente para eles transformarem em carvão.  Bem,vamos aguardar!
E foi dormir em sua cama quentinha. As semanas passaram como se fosse o vento forte, seguindo seu destino sem saber para onde chegar. E veio o dia que a gente não queria que chegasse! O dia em que os coronéis fechariam negócio com a fazenda vizinha, concretizando assim sua compra.
 
__ Pronto, agora só nos restava ficar orando para que eles pudessem alcançar a sabedoria e ver o quanto aquela Paineira bicentenária era importante para todos nós que nos deliciava-mos com sua sombra e com suas risadas alegres que todos nós ouvíamos em noite de lua cheia.
 
Vovó foi de casa em casa, avisando a todos que aquela fonte de inspirações seria fatalmente derrubada para dar lugar a ganância e as atrocidades que eles iriam dali para frente cometer. Todas as crianças choravam, inconformadas, os jovens perguntavam:
 
__ Mas,  porque isto??
 
Os mais velhos se limitavam  calar, pois sabiam que se falassem a respeito poderiam ser castigados e perder aquele emprego de colono que não era lá muito bom, mas dava para alimentar suas famílias, seria também um desastre.
 
  A vovó então resolveu que iria contar o último capítulo da estória da Paineira daqui a quatro dias quando deveria surgir a lua cheia. E ficou assim combinado mesmo contra a vontade de todos que ali estavam reunidos junto com ela. Agora só restava falar com os coronéis para que eles concordassem em só derrubar a Paineira na semana seguinte, pois, ainda faltavam alguns dias para a entrada da lua cheia. E assim foi feito.
 
 Vovó foi falar com os coronéis, que muito a contragosto, receberam a velhinha para saber o que ela queira lhes falar:
 
__ Seu coronel, eu vim aqui “pró-modo”  de falar com os doutores coronéis que eu gostaria que senhores não derrubassem aquela árvore grande que tem ali na fazenda.
 
__ Ué, vovó. Porque a senhora vem aqui fazer um pedido tão estranho?
 
__ Olha, meus filhos, eu tenho se não me lembro bem uns 90 anos de idade e o que já passei por esta vida, meus filhos, não podem nem imaginar. Esta Paineira, doutores, tem não sei quantos anos, acredito que mais de 200 e o que ela deve ter passado para atingir o tamanho que atingiu e saber de tudo que ela sabe a respeito da natureza, os senhores não podem calcular.
 
__ Vovó,  nós sentimos muito, mas a árvore será derrubada.
 
__ Mas porque doutores?
 
__ Porque o progresso não pode parar e para progredirmos temos que abrir espaços para que novas coisas venham surgindo.
 
Nesta altura dos acontecimentos a vovó já estava chorando muito e tentou sensibilizá-los mais uma vez:
 
__ Por favor! Então, doutores, deixe para derrubá-la daqui a quatro dias, pelo menos.
 
Eles se entreolharam e deram o sinal afirmativo que iriam aguardar mais quatro dias.
 
Ela agradeceu choramingando e voltou para casa para ter uma conversa com as crianças. Reuniu todo mundo e ficou combinado que dali a quatro dias iriam se reunir próximo a “Paineira” pois seria o último dia que eles iriam ver aquela “gigantesca Paineira” impoluta, com seu tronco forte e seus galhos como se avançassem para o céu.
 
 Foi chegando o dia de lua cheia, mas ainda era muito cedo e os bichinhos não sabiam de nada e por isso não se reuniram ali.
 
 Foi um barulho ensurdecedor quando aquela majestosa criatura projetou-se conta o solo. Suas sementes voavam envolvidas pela paina como se fosse uma capa de seda pura a proteger o que iria sobreviver, apesar daquela vida que estava a se findar. O céu ficou coberto por uma colcha prateada, voando em todas as direções e levando a esperança de germinarem em algum lugar...
 
 “Todos tem olhos e ouvidos, mas só escutam aqueles que querem escutar e só vêem aqueles que querem ver”.
 
 Que os ensinamentos desta estória possam um dia, quem sabe, servir para vocês e que sejam muito felizes.