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Roberto Gimenez
Poderia
até estar postergando, em querer trocar uma verdadeira estória,
em uma história verdadeira, mas as lembranças que tenho são lá um
tanto quanto embaraçosas.
Faz aproximadamente
umas seis décadas, mais ou menos 65 anos para ser mais preciso,
que conheci uma velhinha de 90 anos que morava em São José do Imbassay
na antiga Vila de Maricá, dos Jesuítas e colonizadores. Contava
ela sempre rodeada de crianças, jovens e até mesmo, gente de mais
idade, que quando mais moça morava em uma fazenda nas bandas de
São José, e que lá havia uma Paineira gigantesca, que quando era
noite de lua cheia, ela começava a sorrir, e o seu riso era ouvido
por mais de 1 km, e que ninguém ousava em sair de dentro de casa
para sequer ver como ela sorria.
Certa vez, conta
ela, que resolveu ir até a janela, quando começaram os risos, e
teve uma grande surpresa, pois os risos não eram simplesmente da
Paineira, mas sim em função do que aquela majestosa árvore
assistia aos seus pés e em seu redor. Havia coelhos, sapos, corujas,
caramujos e uma infinidade de seres que brincavam embaixo de seus
galhos protetores, e em torno de seu tronco espetacular. Brincavam
de roda, pulavam amarelinha, brincavam de anel e todas aquelas brincadeiras
que brincávamos quando éramos crianças.
Os risos daquela árvore formidável,
era em função de quando chegava a vez do sapo pular amarelinha.
Ele, quando pulava, caía de pernas para o ar, provocando risos
quase que sufocantes naquela magnífica criatura de Deus. Não sei
porque só o sapo provocava tantos risos a ela. E fiquei observando
por umas 2 horas aquelas brincadeiras, sem entender nada, e muito
apavorado em ver bichinhos brincando, e uma árvore sorrindo.
Logo tudo parou,
e voltou ao normal, não se via mais os bichinhos, pois a lua no
seu ciclo, já havia passado bastante em direção ao horizonte. Voltei
para dentro de casa e fui dormir.
No dia seguinte bem cedo, fui ao local,
embaixo da árvore, ver o que havia e não encontrei nada, tudo normal.
E as crianças inquietas querendo saber se a Paineira ainda estava
rindo, se o sapo ainda continuava em baixo tentando pular amarelinha
e eu respondia:
__ Vamos esperar agora até que a lua volte cheia para continuarmos
a contar sobre a “Paineira que sorria”.
__ Ah!!! mas quanto tempo vamos esperar?
__ Agora, só mês que vem, quando mudar a fase da lua.
E todos foram para suas casas de novo.
Os dias que
se seguiam eram sempre dolorosos. Um trabalho ainda quase escravo,
pelos coronéis donos da fazenda, que queriam sempre que trabalhássemos
cada vez mais, sem se dar conta de que éramos também humanos
e que precisávamos de descanso. Mas de nada adiantava, eram os Senhores
Feudais, e não tínhamos muita chance de sermos atendidos. Mas em
contra partida, ficava alegre dentro do meu peito, em saber, que
no mês seguinte lá estaria eu, se ainda estivesse viva para dar
continuidade as minhas estórias, e com isso ia resistindo aquele
trabalho penoso que sugava alguns anos de nossas vidas, mas que
eu encarava com resignação.
_ Para mim, conta ela, era importante
que eu fizesse um seriado de minha estória, pois só assim estaria
em condições de continuar vivendo, sabendo que eu estava
causando alegrias a uma infinidade de crianças, jovens e adultos,
que sem saberem estavam dilatando minha vida, sempre em mais um
mês, quando viria o outro capitulo, com a mudança da lua cheia.
E eu me sentia muito importante, indispensável e também muito avó,
ensinando e educando aos mais jovens com carinho e sabedoria para
que um dia eles também seguissem meus exemplos com seus filhos.Na
noite seguinte estava ela em seu “barraco de pau-a-pique”
quando foi chamada pelas crianças. Havia aproximadamente 15 crianças
entre jovens e adultos querendo que ela continuasse a estória da
“Paineira”. Ela então veio a porta e falou para eles
que a estória das “Paineira” só poderia ser contada
no dia da lua cheia.
__ Ah!! Que pena! A gente queria
tanto saber o final... disse as crianças.
__ Mas não fiquem tristes, vou contar para vocês a estória
da “subida do cala a boca”, tá bem assim? Esta pode
ser contada sem a luz cheia é até mais propício sem lua. Bem, vamos
lá:
_ Era uma vez num dia muito chuvoso quando Seu Manoel e Dona.
Josefina que eram casados, resolveram sair da Vila de Maricá, para
ir até o Rio D’ouro, com sua carroça para buscar coisas que
havia ganhado de parentes de sua esposa. O tempo continuava chuvoso,
mas lá pelas 15 horas resolveram partir em direção ao seu destino.
A carroça não desenvolvia muito bem, pois o animal que a estava
puxando já era um pouco velho, mas mesmo assim continuavam devagar.
Ao chegar próximo à “subida do cala a boca” que fica
depois de Inoã a Dona Josefina notou que o animal estava parando,
parando e parou. A carroça de Seu Manoel, com o cavalo velho, havia
emperrado e não se mexia por nada desse mundo. Seu Manoel já estava
preocupado com sua esposa Dna Josefina, que estava toda molhada
e morria de frio. Era uma situação delicada; Seu Manoel puxava o
cavalo pelo queixo e nada... Dava palmadas de leve no seu lombo
e nada... Era de fato uma situação difícil, pois já estava anoitecendo
e eles não conseguiam sair do lugar. De repente, Dna Josefina teve
uma idéia e falou:
__ Meu marido, porque você não tenta falar com o cavalo, com
palavras carinhosas?
__ Ora mulher... falar com o cavalo???
__ É, quem sabe?
__ Pois bem, vamos tentar... Cavalinho, bonitinho, molhadinho, cansadinho,
será que você não poderia andar que é prá gente sair daqui, pois
a chuva está aumentando e já está ficando muito tarde? Hein, cavalinho?
Porque você não quer andar? Está machucado ou está cansado? Responda,
por favor...
E nada...
De repente, quando seu Manoel já estava desistindo, ouviu alguma
coisa diferente:
__ Dona Josefina, Dona Josefina, porque não desce da carroça e vem
ficar com Seu Manoel aqui perto de mim?
O cavalo havia falado!! Dona Josefina desceu rápido da carroça e
ficaram os dois olhando para o cavalo.
__ Não acredito Josefina!!
__ Nem eu Manoel, mas é verdade, o cavalo falou!!
__ Porque vocês estão tão surpresos?? Disse o cavalo.
__ Vocês nunca falam com a gente, se falassem com carinho teriam
sempre respostas. Que sirva de lição para vocês. O problema é o
seguinte: Não podemos fazer muito barulho, pois os ladrões ficam
acampados lá dentro da mata e quando escutam qualquer barulho eles
vêm até aqui a beira da trilha para assaltar quem está passando.
__ Mas como você, um cavalo, sabe disso? Perguntou Seu Manoel.
__ O Sr. sabe que já sou um cavalo bastante velho e que muito antes
de pertencer ao Sr., fui propriedade de tropeiros e já naqueles
tempos eles contavam que só se passava por aqui em total silêncio
para não chamar a atenção dos ladrões, portanto, este nome : “Subida
do cala a boca”. E vocês não notaram, mas as rodas da carroça
que estou puxando estão fazendo muito barulho e fatalmente vai chamar
a atenção dos ladrões, por isto é necessário que se ponha um pouco
mais de graxa no eixo para parar o barulho e facilitar para que
eu puxe com mior tranquilidade, pois também fico cansado !
E assim foi feito.
Seguiram viagem.
Uma semana depois, com a volta do
Sr. Manoel e sua esposa à “Vila de Maricá”, descarregou
a carroça e deu banho no cavalo velho. Enquanto banhava o animal,
Seu Manoel perguntou:
__ Cavalinho, você que é um animal, e que fala, diga-me uma coisa;
o que você sabe a respeito de uma árvore gigante que tem na fazenda
vizinha, e que uma vez por mês na lua cheia fica sorrindo, fazendo
tanto barulho que causa medo a todo mundo?
__ Medo que nada.. ela fica sorrindo, porque adora ver a brincadeira
dos bichinhos que se reúnem embaixo de sua copa.
__ Mas por que ela ri tanto? Nervoso ou alegria?
__ Nada disso, ela ri muito só quando a sapo vai pular “amarelinha”.
__ Mas, porque?
__ É porque o sapo tem quatro pernas e a “amarelinha”
é para ser pulada com duas pernas, aí o sapo fica todo enrolado
e acaba caindo de barriga para cima e a “Paineira” morre
de tanto rir!!
__ Agora crianças...está na hora de dormir. Vamos esperar a lua
cheira que eu vou contar mais um pedaço da estória da Paineira.
Durmam com Deus! E não se esqueçam de tratar os animais e as pessoas
com carinho, pois só podemos ter respostas sempre do que perguntamos,
com carinho e ternura.
__ Boa noite, vovó!
E foram todos para as suas casas felizes
por terem ouvido mais uma historinha da vovó de quem tanto gostavam.
Os dias passavam muito depressa e as crianças, todos os dias
que viam a velhinha, lembravam-na que já havia passado tantos dias.
Isto, para ela, era uma verdadeira alegria, pois, cada vez mais,
tinha certeza de que suas histórias estavam agradando não só a meninada
como também aos adultos que ficavam impacientes de esperar, mas
não deixavam perceber.
No dia seguinte, a manhã começou com uma chuva fina e persistente
e a maioria das crianças ficaram em suas casas em companhia dos
irmãos maiores, enquanto seus pais saiam para a lavoura, para a
labuta do dia a dia. Mas, Pedrinho, que era filho de um dos colonos,
que morava mais próximo a casa da vovó sentiu a sua falta, pois,
todos os dias lá estava ela com sua enxada nos ombros indo em direção
a lavoura. Botou um agasalho sobre os ombros e foi a casa dela para
ver o que estava acontecendo. Bateu na porta quatro vezes e chamava:
__ Vovó!! Vovó!! Já acordou?
E não obteve nenhuma resposta. O menino
sem entender, e um pouco assustado, viu que não era normal a vovó
ficar dormindo até àquela hora, pois ela acordava sempre muito cedo.
Resolveu chamar o irmão mais velho e voltaram à casa dela. Tornaram
a chamar, e da mesma forma, ninguém atendia. Decidiram então, abrir
a porta e entrar. Qual não foi a surpresa quando os meninos entraram
e se depararam com a vovó deitada em sua cama quentinha, com um
sorriso nos lábios. Falou então, baixinho:
__ Sentem-se aí na beira da cama, meninos,
porque hoje a vovó está muito cansada e vai precisar que vocês me
ajudem a levantar.
Os dois meninos, então, seguraram a vovó
pelos braços e a levantaram da cama com um pouco de sacrifício.
__ A vovó hoje está um pouco adoentada
e não vai poder ir para a lavoura. Avisa ao Coronel, por favor,
meus filhos. Vou fazer um chá de ervas para ver se melhoro um pouco,
depois, me deito de novo...
O irmão do menino que ficou no barraco,
perguntou a vovó se não iria mais contar a história, pois só faltava
uma semana para a lua cheira chegar. Vovó sorriu e respondeu:
__A vovó vai contar sim meu filho, até
lá já estarei boa. Vá agora para casa, pois assim que eu melhorar
vou lá... ter com seus pais.
No dia seguinte, a chuva já havia
passado e o sol brilhava no horizonte e os meninos, preocupados,
estavam da janela vendo se a vovó saía com a enxada nos ombros para
trabalhar. Lá estava ela, saindo sempre sorridente. Deu uma paradinha
para falar com as crianças e seguiu em direção a lavoura com os
passos cambaleantes, devido a idade. As crianças ficaram felizes,
saíram de suas casas e foram correndo avisar as outras que haveria
história, pois a vovó já estava boa. Foi um delírio só, faziam
uma algazarra frenética, com muita alegria, em saber que haveria
mais um capítulo da “Paineira que sorria”, ainda
bem!
A semana passou como por encanto.
A expectativa era grande não só por parte da criançada, mas também
pelos jovens e os mais idosos que não paravam de perguntar a que
horas iria começar a historinha da vovó. A mesma de sempre, logo
que a lua surgir. E com a pontualidade daquela que aprendeu com
os anos, a chegar bem cedo aos seus compromissos, ao surgir a lua
cheia atrás do morro, lá estava a vovó com seu vestido de chita
bem comprido e seus chinelos pretos, já rodeada por muita gente:
crianças, jovens, adultos e até mesmo o capataz, que gostava muito
dela. Aí então a vovó começou:
__... então, o sapo pulava mais uma vez e não conseguia abrir um
pé para cada lado na “amarelinha” e caía todo esparramado,
com a barriga branca virada para cima.
Começavam então os risos estridentes:
__ Quá! Quá! Quá!
__ Desta vez o sapo se levantou zangado, ficou muito bravo, dizendo:
__ “Porque você só ri de mim? Está me achando um palhaço
de circo ou um desajeitado para pular “amarelinha”?
Responda, sua “Paineira escandalosa”!
__ Não é nada pessoal Sr. Sapo, é que
eu nunca tinha visto nestes meus 200 anos de vida ninguém pular
“amarelinha” com quatro pernas! Não fique zangado não!
Em compensação, você é o único que me faz rir e que me dá alegrias.
Tantas, que não consigo me controlar quando você pula “amarelinha”.
Já o amigo Caramujo, me dá sono de ver ele andar, é muito lento,
mas nem por isso deixo de apreciá-lo quando brinca de esconde-esconde,
recolhendo seu corpo para dentro da concha e, esquecendo a brincadeira,
vai dormir!
__A comadre Coruja nem pisca, quando
brinca de “jogar sério”, é sempre a vencedora. O velho
gambá, chiiii ..., este é uma tragédia! Quando vai brincar, ninguém
agüenta o cheiro que solta, mas mesmo assim, fico muito contente
em assistir e abrigá-lo também, embaixo de minha copa.
__ É por tudo isto, Sr. Sapo, que fico
muito contente só em assistir as suas brincadeiras. Você não sabe
com que ansiedade eu espero a lua cheia a cada mês, dizia a vovó.
E continuavam as explicações da “Paineira”, até
que uma nuvem escura encobriu a lua cheia. Os bichinhos ficaram
assustados sem saber o que estava acontecendo, quando a amiga Paineira
falou:
__ Não fiquem assustados, que isso já vai passar. E os amiguinhos
ficaram mais calmos.
Neste dia, os moradores da redondeza
estranharam, porque não ouviram os risos estridentes, pois não sabiam
que nesta noite a Paineira reservou, para explicar ao sapo porque
ria tanto, quando ele pulava “amarelinha”! Mas o pior
ainda estava por acontecer. Chegaram na fazenda vizinha, novos coronéis
que ficaram muito interessados na fazenda. da “Paineira”.
Fizeram logo uma proposta para comprá-la, oferecendo também algumas
máquinas e equipamentos de cortar lenha para fazer carvão, que era
tão importante na época, quanto a cana de açúcar, o café, o sal,
o milho, pois era muito bem aceito pelos tropeiros que compravam
todo o tipo de mercadorias para vender.
E aí, meu filho, começou a terrível
história dos homens que queriam comprar a fazenda e cortar madeira
para fazer carvão para comercializar. Foi uma tristeza! Quando se
depararam com a gigantesca “Paineira”, os olhos dos
coronéis brilharam como duas brasas de fogo, gananciosos, pois já
calculavam como seria rentável a madeira daquela “magnífica
árvore”.
Eles não sabiam que a “Paineira”
falava e conversava com os animais que habitavam a mata vizinha,
e mesmo que soubessem, não dariam a menor atenção, pois já estavam
determinados a derrubar a Paineira, para transformá-la em carvão,
para ser comercializada com os tropeiros que compravam de tudo.
Começou uma verdadeira batalha entre coronéis que queriam comprar
a fazenda da “Paineira” e as pessoas que residiam nas
redondezas e que apreciavam sua sombra e os ninhos de pássaros que
ali se instalavam, por sentirem confiança em seus galhos fortes
e protetores.
Além das crianças, jovens e adultos
já estavam se acostumando com seus risos e perdendo o medo devido
as estórias que vovó contava nas noites de lua cheia. Mas
de nada adiantava, eles estavam determinados a comprar a fazenda
e acima de tudo derrubar nossa fonte de alegrias e sonhos.
O que seria de todos nós, sem aquela
árvore, que nos dava sombra, alegrias e soltava seus pêlos prateados
que nos servia para fazer travesseiros macios para dormimos? Estava
difícil, e a “majestosa árvore” nem se manifestava,
pois ela só falava em noites de lua cheia com os animais e não tínhamos
conhecimento de ninguém que havia conversado com ela, mesmo em noite
de lua cheia.
No dia seguinte, as crianças e
até mesmo o capataz, se reuniram e logo após vovó haver chegado
da lavoura, depois de mais um dia de trabalho, mesmo
cansada, nem esperaram, foram logo perguntando para ela:
__ Vovó! Vovó! Como vai ficar a
situação da nossa árvore?
Eles diziam “nossa”, pois
já se consideravam os verdadeiros donos da Paineira, tendo em vista
que já conheciam parte de suas estórias, contadas pela vovó.
__ Meus filhos, fiquem tranqüilos, vamos
ter fé em Deus e vamos pedir para que Ele conserve a “árvore”
intacta, sem que a derrubem.
__ Mas como vovó? Eles já estão quase
comprando a fazenda, e a primeira coisa que vão fazer quando isso
acontecer é derrubá-la para fazer carvão!
__ Vamos ter fé meus filhos. Deus é o Senhor de todas as coisas
e acredito que não vai deixar esta de lado. Vamos aguardar o novo
ciclo da lua, pois ainda, com certeza, teremos mais capítulos para
contar. Fiquem tranqüilos!
Vovó falava com tanta segurança, que
era impossível deixar de acreditar em suas palavras:
__ Agora deixa a vovó descansar, pois hoje, foi um dia de
trabalho muito árduo!
__ Boa noite, vovó.
__ Boa noite, meus filhos, durmam com Deus.
Vovó entrou para seu casebre muito preocupada,
mas sem deixar que as crianças percebessem.
__ Porque será que eles querem derrubar logo a Paineira. Tem tantas
árvores aí que poderiam servir tranqüilamente para eles transformarem
em carvão. Bem,vamos aguardar!
E foi dormir em sua cama quentinha. As semanas passaram como se
fosse o vento forte, seguindo seu destino sem saber para onde chegar.
E veio o dia que a gente não queria que chegasse! O dia em que os
coronéis fechariam negócio com a fazenda vizinha, concretizando
assim sua compra.
__ Pronto, agora só nos restava ficar
orando para que eles pudessem alcançar a sabedoria e ver o quanto
aquela Paineira bicentenária era importante para todos nós que nos
deliciava-mos com sua sombra e com suas risadas alegres que todos
nós ouvíamos em noite de lua cheia.
Vovó foi de casa em casa, avisando a
todos que aquela fonte de inspirações seria fatalmente derrubada
para dar lugar a ganância e as atrocidades que eles iriam dali para
frente cometer. Todas as crianças choravam, inconformadas, os jovens
perguntavam:
__ Mas, porque isto??
Os mais velhos se limitavam calar,
pois sabiam que se falassem a respeito poderiam ser castigados e
perder aquele emprego de colono que não era lá muito bom, mas dava
para alimentar suas famílias, seria também um desastre.
A vovó então resolveu que iria
contar o último capítulo da estória da Paineira daqui a quatro dias
quando deveria surgir a lua cheia. E ficou assim combinado mesmo
contra a vontade de todos que ali estavam reunidos junto com ela.
Agora só restava falar com os coronéis para que eles concordassem
em só derrubar a Paineira na semana seguinte, pois, ainda faltavam
alguns dias para a entrada da lua cheia. E assim foi feito.
Vovó foi falar com os coronéis, que muito a contragosto, receberam
a velhinha para saber o que ela queira lhes falar:
__ Seu coronel, eu vim aqui “pró-modo” de falar
com os doutores coronéis que eu gostaria que senhores não derrubassem
aquela árvore grande que tem ali na fazenda.
__ Ué, vovó. Porque a senhora vem aqui
fazer um pedido tão estranho?
__ Olha, meus filhos, eu tenho se não me lembro bem uns 90 anos
de idade e o que já passei por esta vida, meus filhos, não podem
nem imaginar. Esta Paineira, doutores, tem não sei quantos anos,
acredito que mais de 200 e o que ela deve ter passado para atingir
o tamanho que atingiu e saber de tudo que ela sabe a respeito da
natureza, os senhores não podem calcular.
__ Vovó, nós sentimos muito, mas
a árvore será derrubada.
__ Mas porque doutores?
__ Porque o progresso não pode parar
e para progredirmos temos que abrir espaços para que novas coisas
venham surgindo.
Nesta altura dos acontecimentos a vovó
já estava chorando muito e tentou sensibilizá-los mais uma vez:
__ Por favor! Então, doutores, deixe
para derrubá-la daqui a quatro dias, pelo menos.
Eles se entreolharam e deram o sinal
afirmativo que iriam aguardar mais quatro dias.
Ela agradeceu choramingando e voltou
para casa para ter uma conversa com as crianças. Reuniu todo mundo
e ficou combinado que dali a quatro dias iriam se reunir próximo
a “Paineira” pois seria o último dia que eles iriam
ver aquela “gigantesca Paineira” impoluta, com seu tronco
forte e seus galhos como se avançassem para o céu.
Foi chegando o dia de lua cheia,
mas ainda era muito cedo e os bichinhos não sabiam de nada e por
isso não se reuniram ali.
Foi um barulho ensurdecedor quando
aquela majestosa criatura projetou-se conta o solo. Suas sementes
voavam envolvidas pela paina como se fosse uma capa de seda pura
a proteger o que iria sobreviver, apesar daquela vida que estava
a se findar. O céu ficou coberto por uma colcha prateada, voando
em todas as direções e levando a esperança de germinarem em algum
lugar...
“Todos tem olhos e ouvidos,
mas só escutam aqueles que querem escutar e só vêem aqueles que
querem ver”.
Que os ensinamentos desta estória possam um dia, quem sabe,
servir para vocês e que sejam muito felizes.
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