29/09/2001
TRAGÉDIA DA SERRA DA TIRIRICA
Por Gerhard Sardo*
 
 
    Era quinta-feira, 12h15m ... momento de dúvidas. Soou uma grande explosão, parecia uma trovoada que persistia em ecoar pelo vale da Serra da Tiririca que delimita o bairro de Itaipuaçu. Momentos de anciosidade, nervosismo afloravam entre os moradores locais. Estavam todos atônitos com o que surgia entre a névoa ... uma grande fumaça negra entre a floresta. Do outro lado da Pedra do Elefante, no bairro de Itacoatiara, parecia que caíra uma bomba, quando foi sentido um estúpido deslocamento de ar. As casas trepidaram e os vidros das janelas estavam prontos a quebrar. 30 minutos depois do susto surgiram um, dois, três e quatro helicópteros de resgate. Parecia uma guerra em pleno Rio de Janeiro. Os curiosos vagavam pelas ruas e jovens voluntários seguiam em direção ao local para auxiliar as equipes de resgate. O Corpo de Bombeiros logo chegou. Foi o primeiro grupamento oficial de resgate a chegar junto ao local do acidente. A dúvida pairava sobre a identicação da aeronave ... seria um avião ou helicóptero ? Com apoio de montanhistas locais as equipes de resgate alcançaram os destroços do avião. Que avião ? Ninguém sabia dizer. No local, muitos destroços e corpos mutilados e carbonizados ... visceras humanas espalhadas de forma indescritível. Foi um momento de horror. Nínguém sabia o que fazer ... estavam todos sem ação. A área atingida pelo Hércules C-130 estava em chamas, com vários focos de incêndio pela floresta. Os destroços do avião cobriam toda a Pedra do Elefante. Na vertente para Itaipuaçu, na trilha principal e na vertente para Enseada do Bananal, bem próximo ao cume da Pedra da Tartaruga, percebía-se a dimensão do problema. Eram milhares de objetos, fuselagens e restos humanos espalhados pela densa vegetação. Uma cena de guerra. Alguns ficaram nervosos, outros chocados. Houve discussão ... Havia um clima de insegurança no local. Alguns tentavam chegar aos destroços do avião, quando foi notado o risco de desabamento da encosta. Um amontoado do pedras soltas, solo encharcado e nevoeiro parecia indicar um novo desastre. Todos se afastaram das áreas de risco, O cheiro forte de combustível indicava a possibilidade de novas explosões ... o medo era inevitável. As equipes de reportagem se aproximaram. Uma hora depois as equipes da Aeronáutica chegaram ao topo da Serra da Tiririca. Evacuaram a região. Foram retirados do local todos os voluntários e integrantes do Corpo de Bombeiros. Eram os agentes da Força Aérea Brasileira que chegavam sem parar. Dezenas de militares armados com fuzis cercaram a região. Interditaram as vias de acesso e a trilha principal. A sociedade civil foi afastada e não houve mais qualquer possibilidade de auxílio àqueles que demonstravam conhecer muito pouco a Serra da Tiririca. O resultado foram perdas de vidas humanas e degradação ambiental.
 
    * Gerhard Sardo é jornalista e ambientalista, participou como guia das primeiras ações de resgate junto ao Corpo de Bombeiros na Pedra do Elefante.
 
    Tel(21) 9999-4953 / E-mail: ger_sardo@ig.com.br
 

  RELEASE
FRENTE DE DEFESA DA SERRA DA TIRIRICA FAZ
REPRESENTAÇÃO AO MINISTÉRIO PÚBLICO
PARA APURAR RESPONSABILIDADE CIVIL
DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA
 
    No dia 01 de outubro, segunda-feira, será entregue ao Ministério Público Estadual, na pessoa do promotor de Justiça Marcelo Buhatem (Promotoria de Interesses Difusos e Direitos Coletivos de Nterói e Maricá), representação da Frente de Defesa da Serra da Tiririca, assinada pelo jornalista/ambientalista Gerhard Sardo (membro da coordenação da entidade ecológica) solicitando a instauração de Inquérito Civil para apurar  responsabilidade cívil da Força Aérea Brasileira (FAB) na degradação ambiental identificada na área de Mata Atlântica no topo da Pedra do Elefante (área significativa em espécies ameaçadas de extinção inseridas dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca) causada pela queda acidental do avião militar Hércules C-130.
    Para o jornalista/ambientalista Gerhard Sardo, a necessidade de intervenção do MInistério Público Estadual urge para garantir a recuperação da área que foi degradada, uma vez que o local é considerado pela ONU parte integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlâtntica. A importância da ação indenizatória em benefício do Parque Estadual da Serra da Tiririca, segundo o ambientalista, é equivalente a queda (mesmo que acidentalmente) de qualquer aeronave civil ou militar sobre prédio comercial ou residencial, como a Torre do Rio Sul, em Botafogo,Rio, uma vez que logo surgiram  familíares das vítimas reivindicando reparação por danos materiais. O ambientalista recorda, ainda, que a região atingida pelo Hércules C-130 é de domínio público (patrimônio nacional), o que reforça a necessidade de recuperação do ambiente natural.