04/10/2001
QUANDO BATE A SAUDADE DO ONTEM

                               

                                                                                  José de Souza Soares*

                                      Vez por outra eu me lembro de um tempo maravilhoso, quando o mundo era mais calmo e a vida era mais fácil de se viver. Isto data da década de 40. Nesta época não existia ainda Televisão, não tinha telefone celular, em Internet nem se pensava e o sistema viário era bem diferente do que existe agora. Os ônibus eram mais simples e um percurso entre uma cidade e outra, era feito em muitas horas, bem diferente dos dias de hoje.

                                      Embora as dificuldades daquela época, tudo era muito romântico ao se comparar a esta vida agitada que se vive hoje. Com poucos meios de  transporte, as opções eram restritas apenas ao trem e aos ônibus  para a maioria das cidades. Naquela época o transporte aéreo ainda estava engatinhando, pois vivia-se o tempo da famosa Panair,  quase exclusiva neste segmento em nosso país.

                                     No que concerne a Maricá, por exemplo, só tínhamos a velha e romântica Maria Fumaça ou os ônibus do Eugenio Silva, proprietário da Viação Comercial, que além das linhas de Maricá, Saquarema e Araruama, mantinha uma para o bairro de Rio do Ouro. A sede da Empresa ficava no bairro de Paciência (divisa de Niterói e São Gonçalo). Naquele tempo só existia a estrada Velha de Maricá, mas logo a seguir foi construída a Niterói/Campos, a atual Rodovia Amaral Peixoto, que fez mudar em muito os hábitos e comportamentos das cidades por ela cortadas.

                                    Terminada a segunda Guerra Mundial, o país sofreu uma transformação considerável, e com isso muita coisa teve que forçosamente mudar, mas os meios de transportes não tiveram assim de imediato mudança. Demorou bastante a sua modernização, vindo acontecer somente na era JK.

                                     Entretanto, minhas lembranças não estão fixadas somente nestas mudanças, estão na inocência daquele tempo, da paz que se vivia e dos sonhos e projetos dos jovens daquela época. A Festa da Padroeira de Maricá, da padroeira de Saquarema e de outras datas, como: Finados, Natal, Semana Santa e Carnaval, pois o fluxo de pessoas que se deslocava de uma cidade para outra era bem grande. E era lindo a gente se arrumar, vestir a melhor roupa para freqüentar tais locais, como por exemplo a festa de Nossa Senhora do Amparo, que era o ponto alto e a mais importante para a comunidade maricaense, e quase ninguém  deixava de participar dela. Tinha famílias que até alugavam casas no centro da cidade para que pudessem ficar mais perto do evento. O que não sai também da minha lembrança, são os leilões com prendas aquelas maravilhosas. E os pregões dos leiloeiros estão ainda gravados na minha mente e me fazem viajar até aquela época. Mas como é bom recordar!!!

                                   Porém, à Maria Fumaça, aos ônibus do Eugenio Silva e às festas realizadas na cidade, junto ainda a presença do meu avô Jacinto Pereira de Souza, um sitiante da localidade do Caju, que nas horas vagas adorava a pescaria e vez por outra se via numa canoa jogando sua tarrafa e sempre recolhendo uma quantidade razoável de peixes. Meu avô era uma figura muito falante, gostava de falar de política e sobre o dia-a-dia de Maricá, pois conhecia quase todos os moradores e o que se passava na cidade.  Este meu avô que além da lembrança deixou herdeiros de comportamento, pertencentes hoje a  terceira geração da nossa família. Foi ele quem me ensinou a amar a natureza e a cuidar melhor do meio ambiente. Nós, membros da família, nos reuníamos em sua casa, e dali partiamos para as festas, o que era uma deliciosa rotina.

                                       A Maricá de hoje é bem outra, sem a Maria Fumaça, sem Ônibus do Eugenio Silva e sem o meu Avô, mas ainda com muito romantismo, mantido pela nova geração de nativos e por um bom contingente de pessoas que vieram de outras cidades para fazer desta aqui sua residência. Hoje vivemos a era do celular, da internet - Maricá.com.br – dos ônibus da Nossa Senhora do Amparo e de tantas outras coisas modernas que facilitam tanto a nossa vida, mas que não eliminam a nossa saudade, que por ser antiga não aceita nenhum componente novo quando este quer apagar as coisas boas vividas no passado. Adoro a Maricá de hoje, porém não me esqueço jamais do ontem aqui vivido 

                                                                        *jornalista e Escritor