O SUBMUNDO DA TELEFONIA
   Revoltados com salários e jornada de trabalho, prestadores  de serviço da Telemar mostram como lesam a empresa e o  cliente

                                                                  Luciene Braga

 LIGAÇÕES PERIGOSAS - Como a empresa perde o dinheiro que os assinantes pagam

 Em alguns casos, as empreiteiras enviam mais de um funcionário para fazer a instalação ou
 reparo. Esse número pode chegar a quatro. Todos declaram o serviço e relatam o material
 gasto: cabos, caixas, fios, dia de trabalho. Não existe conferência. Há ainda casos de
 venda de material da Telemar. Os fios, por exemplo, são negociados pela metade do preço.
 A gasolina que abastece os carros dos técnicos sai por R$ 1, o litro, enquanto o preço
 médio nos postos é de R$ 1,75. A escada cromada usada para o trabalho nos postes é
 vendida de R$ 100 a R$ 150. O preço de mercado chega a R$ 499. Veja abaixo mais
 histórias de gatos, golpes, gatilhos, grampos e outras armações.

 O submundo da prestação de serviços em telefonia universalizou o prejuízo para assinantes
 e para a Telemar, a concessionária do Rio. O DIA acompanhou a jornada de trabalho de
 alguns “Irlas” (Instaladores e Reparadores de Linhas e Aparelhos), profissionais responsáveis
 pelas ligações de novos acessos (números) e consertos, que prestam serviços para a
 empresa.

 Dizendo-se revoltados com os baixos salários e a carga horária excessiva, esses técnicos
 negociam linhas clandestinas e oferecem vantagens que não fazem parte da cesta de
 serviços da operadora. E cobram por fora para fazer grampos, gatos de orelhões e
 adiantamento de instalações, além de garantir vaga privilegiada na longa fila das
 transferências. Outra forma que eles encontram para faturar renda extra é vender material,
 ferramenta e até a gasolina da companhia.

 “Já faz parte. Sem isso, não dá para sobreviver”, diz um deles, líder de grupo, que ganha R$
 350 por mês. “A gente trabalha de domingo a domingo, sem hora extra e sem condição de
 completar os serviços. Já dei expediente de 8h às 5h do dia seguinte”.

 Em alguns casos, eles derrubam (desligam) um antigo assinante para ligar outro, novo. A
 seleção, conta o Irla, segue um critério: o técnico confere cada canal ligado ao poste.
 Linhas bloqueadas são as preferidas. “Na falta, a gente escolhe uma ativa, à base do
 uni-duni-tê”, ironiza outro Irla, que garante ter começado a trabalhar honestamente.
 “Depois de instalar uma linha, no maior sacrifício, eles marretavam (clonavam ou desligavam)
 o meu serviço. Comecei a fazer o mesmo e cheguei a ganhar uns R$ 2 mil em um mês”,
 justifica.

 Sem saber, assinante paga ligação entre técnicos

 A tabela dos serviços clandestinos vai de R$ 50 a R$ 300. “Depende da cara do freguês e
 da complexidade da tarefa. Tem coisa que é inafiançável”, explica um Irla ao DIA, enquanto
 desenha um gráfico, mostrando como não ser descoberto ao conectar um orelhão a uma
 loja comercial. No Rio, é possível ter uma linha privada sem pagar a conta. Basta pedir a um
 técnico: por R$ 100 a R$ 200 mensais, ele providencia uma extensão de um orelhão e ainda
 fornece um novo número – pertencente a alguém que ficará muito tempo tentando descobrir
 onde foi parar a linha. “Já fiz mais de 50 gatos desses. E nada de ligações aparentes ou de
 serviço porco”, gaba-se.

 O “tranque” é mais um golpe no bolso do cliente. O prefixo 9201 pertence aos funcionários
 da empresa. Quando querem conversar, usam as linhas da rede e a conta vai para o
 assinante. “Essa vai deixar a Telemar doida. Porque o cliente tem o direito de ser
 ressarcido. É só reclamar”, revela. O técnico abre um armário ótico (URA) e mostra como se
 faz. O armário estava aberto, apesar de ter chave – mais uma fragilidade exposta. “Já teve
 gente que botou fogo nele”.

 Grampo é serviço de luxo e pode custar até R$ 300

 Investigar telefonemas alheios sai por R$ 300 – R$ 100 são para adaptar um gravador.
 “Cornos e mulheres ciumentas pedem muito, mas o grampo só dura um mês, porque a
 operadora detecta o chiado na linha e reverte automaticamente”, explica o técnico. Mas o
 controle nem sempre é eficiente. Todos os dias, eles têm que apresentar à empresa o
 resultado do trabalho. Como nem sempre é possível declarar a verdade, eles justificam as
 ordens de serviço com algumas desculpas, já institucionalizadas: endereço não encontrado,
 morador não localizado, sem facilidade (linha disponível) ou o cabo não atende.


 Próximo Texto | Índice

                                                                                       
                                                                                                 
 
 











Domingo, 28 de outubro de 2001.

                                

 O submundo da telefonia

 Revoltados com salários e jornada de trabalho, prestadores
 de serviço da Telemar mostram como lesam a empresa e o
 cliente

                                                                  Luciene Braga

 LIGAÇÕES PERIGOSAS - Como a empresa perde o dinheiro que os assinantes pagam

 Em alguns casos, as empreiteiras enviam mais de um funcionário para fazer a instalação ou
 reparo. Esse número pode chegar a quatro. Todos declaram o serviço e relatam o material
 gasto: cabos, caixas, fios, dia de trabalho. Não existe conferência. Há ainda casos de
 venda de material da Telemar. Os fios, por exemplo, são negociados pela metade do preço.
 A gasolina que abastece os carros dos técnicos sai por R$ 1, o litro, enquanto o preço
 médio nos postos é de R$ 1,75. A escada cromada usada para o trabalho nos postes é
 vendida de R$ 100 a R$ 150. O preço de mercado chega a R$ 499. Veja abaixo mais
 histórias de gatos, golpes, gatilhos, grampos e outras armações.

 O submundo da prestação de serviços em telefonia universalizou o prejuízo para assinantes
 e para a Telemar, a concessionária do Rio. O DIA acompanhou a jornada de trabalho de
 alguns “Irlas” (Instaladores e Reparadores de Linhas e Aparelhos), profissionais responsáveis
 pelas ligações de novos acessos (números) e consertos, que prestam serviços para a
 empresa.

 Dizendo-se revoltados com os baixos salários e a carga horária excessiva, esses técnicos
 negociam linhas clandestinas e oferecem vantagens que não fazem parte da cesta de
 serviços da operadora. E cobram por fora para fazer grampos, gatos de orelhões e
 adiantamento de instalações, além de garantir vaga privilegiada na longa fila das
 transferências. Outra forma que eles encontram para faturar renda extra é vender material,
 ferramenta e até a gasolina da companhia.

 “Já faz parte. Sem isso, não dá para sobreviver”, diz um deles, líder de grupo, que ganha R$
 350 por mês. “A gente trabalha de domingo a domingo, sem hora extra e sem condição de
 completar os serviços. Já dei expediente de 8h às 5h do dia seguinte”.

 Em alguns casos, eles derrubam (desligam) um antigo assinante para ligar outro, novo. A
 seleção, conta o Irla, segue um critério: o técnico confere cada canal ligado ao poste.
 Linhas bloqueadas são as preferidas. “Na falta, a gente escolhe uma ativa, à base do
 uni-duni-tê”, ironiza outro Irla, que garante ter começado a trabalhar honestamente.
 “Depois de instalar uma linha, no maior sacrifício, eles marretavam (clonavam ou desligavam)
 o meu serviço. Comecei a fazer o mesmo e cheguei a ganhar uns R$ 2 mil em um mês”,
 justifica.

 Sem saber, assinante paga ligação entre técnicos

 A tabela dos serviços clandestinos vai de R$ 50 a R$ 300. “Depende da cara do freguês e
 da complexidade da tarefa. Tem coisa que é inafiançável”, explica um Irla ao DIA, enquanto
 desenha um gráfico, mostrando como não ser descoberto ao conectar um orelhão a uma
 loja comercial. No Rio, é possível ter uma linha privada sem pagar a conta. Basta pedir a um
 técnico: por R$ 100 a R$ 200 mensais, ele providencia uma extensão de um orelhão e ainda
 fornece um novo número – pertencente a alguém que ficará muito tempo tentando descobrir
 onde foi parar a linha. “Já fiz mais de 50 gatos desses. E nada de ligações aparentes ou de
 serviço porco”, gaba-se.

 O “tranque” é mais um golpe no bolso do cliente. O prefixo 9201 pertence aos funcionários
 da empresa. Quando querem conversar, usam as linhas da rede e a conta vai para o
 assinante. “Essa vai deixar a Telemar doida. Porque o cliente tem o direito de ser
 ressarcido. É só reclamar”, revela. O técnico abre um armário ótico (URA) e mostra como se
 faz. O armário estava aberto, apesar de ter chave – mais uma fragilidade exposta. “Já teve
 gente que botou fogo nele”.

 Grampo é serviço de luxo e pode custar até R$ 300

 Investigar telefonemas alheios sai por R$ 300 – R$ 100 são para adaptar um gravador.
 “Cornos e mulheres ciumentas pedem muito, mas o grampo só dura um mês, porque a
 operadora detecta o chiado na linha e reverte automaticamente”, explica o técnico. Mas o
 controle nem sempre é eficiente. Todos os dias, eles têm que apresentar à empresa o
 resultado do trabalho. Como nem sempre é possível declarar a verdade, eles justificam as
 ordens de serviço com algumas desculpas, já institucionalizadas: endereço não encontrado,
 morador não localizado, sem facilidade (linha disponível) ou o cabo não atende.