22/10/2001
NOTA AOS AMBIENTALISTAS

ESCLARECIMENTO SOBRE RESPONSABILIDADE CIVIL DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA PELOS DANOS AMBIENTAIS PROVOCADOS COM A QUEDA DE AVIÃO MILITAR NO
 PARQUE ESTADUAL DA SERRA DA TIRIRICA
 
            Na qualidade de membro da coordenação da Frente de Defesa da Serra da Tiririca (movimento popular que originou a criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca) e em virtude das diversas interpretações que vem sendo divulgadas pelos órgãos de imprensa quanto a iniciativa para reparar os danos ambientais provocados pela queda de avião militar Hércules C-130 na Pedra do Elefante, esclareço os seguintes pontos:
 
·        EXERCÍCIO DE CIDADANIA
 
O Parque Estadual da Serra da Tiririca foi idealizado em 1988 através de reivindicações da Frente de Defesa da Serra da Tiririca. Sua criação se deu em 1991 por meio de proposta das ONG’s ambientalistas de Niterói, Marica e São Gonçalo. Foi a primeira Unidade de Conservação da Natureza no Brasil criada por iniciativa da sociedade civil. Em 1993 o Governo do Estado reconheceu seu limites provisórios. Em 1994 a UNESCO (órgão deliberativo da ONU) declarou a Serra da Tiririca como parte integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Foram conseqüências do exercício de cidadania dos ambientalistas. A partir de 1995 iniciaram-se os grandes enfrentamentos contra os agentes de depredação ao meio ambiente que agiam (e agem) no interior do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Foram alcançadas vitórias significativas, como a interdição da Empresa de Mineração Inoã, a suspensão das licenças da Saibreira Fernandes & Oliveira, a intervenção jurídica do Ministério Público Estadual contra o desmatamento provocado pelo Centro Evangelístico Internacional, a expansão de condomínios e loteamentos, e a até então inédita obtenção, por parte de uma ONG ambientalista, de uma liminar antecipada contra o Governo do Estado pelo evidente abandono do Parque Estadual. Foram conseqüências do exercício de cidadania. A representação oferecida ao Ministério Público Estadual, para apurar a responsabilidade civil da Força Aérea Brasileira (FAB) nada mais é do que um exercício de cidadania.
 
·        AÇÃO JUDICIAL CONTRA A FORÇA AÉREA BRASILEIRA
 
Em momento algum declarei a necessidade de impetrar Ação Cível Pública de Responsabilidade ou Ação Popular contra a Força Aérea Brasileira (FAB). Informei, apenas, sobre iniciativa de representação ao Ministério Público Estadual para averiguação de responsabilidade civil da instituição FAB  para com a degradação ambiental provocada pela queda acidental de avião militar, bem como o corte indiscriminado de árvores da Mata Atlântica que estaria sendo feito por agentes militares na área de influência do choque.
 
·        DATA DA REPRESENTAÇÃO
 
A representação oferecida ao Ministério Público Estadual foi feita em 01/10, ou seja: 4 (quatro) dias após o acidente.
 
·        FUNÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL
 
O Ministério Público Estadual têm trabalhado em busca do entendimento. Sua atuação foi solicitada como mecanismo legal para garantir o diálogo em defesa do interesse difuso.
Oferecer uma representação ao Ministério Público Estadual não significa, necessariamente, propor (ou exigir) qualquer tipo de ação judicial.
 
·        AUSÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO DO PARQUE ESTADUAL
 
No momento do acidente aéreo, bem como nos dias que sucederam a tragédia, a administração do Parque Estadual da Serra da Tiririca foi ausente e omissa nas discussões de interesse das vítimas ou do meio ambiente, tornando necessária a intervenção da sociedade civil.
 
·        TERMO DE COMPROMISSO AMBIENTAL
 
Meu propósito, enquanto ambientalista, é viabilizar um Termo de Compromisso Ambiental entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e o Instituto Estadual de Florestas (órgão público ambiental responsável pela gestão do Parque Estadual da Serra da Tiririca), sob a supervisão do Ministério Público Estadual (daí a necessidade da representação), que garanta, entre outras medidas compensatórias, a execução de  projeto de recuperação florestal de área degradada (que não precisa ser no local atingido pelo Hércules C-130) e a cessão de uso de helicóptero militar para realização de monitoramento (fiscalização) do corredor ecológico que compõe a APA do Engenho Pequeno, a Reserva Ecológica Darcy Ribeiro, o Parque Estadual da Serra da Tiririca e a APA de Marica, abrangendo os municípios de São Gonçalo, Niterói e Marica.
Para efetivar o Termo de Compromisso Ambiental, foi agendado pela Frente de Defesa da Serra da Tiririca, audiência para o dia 25/10 com o Chefe do Estado Maior do 3º Comando Aéreo Regional, Coronel Breno Cavalcante de Barros, e o presidente do Instituto Estadual de Florestas, Roberto Félix.
 
·        CONVERSÃO DAS PENALIDADES
 
Se fosse meu único propósito responsabilizar judicialmente a Força Aérea Brasileira (FAB), enquanto instituição governamental, facilmente chegaria ao objetivo. Exigir o cumprimento de duas leis federais, um decreto federal e uma lei estadual seriam argumentos suficientes para determinar penalidades que poderiam resultar em multa de até R$ 101.500,00 (cento e um mil e quinhentos reais) e prisão de até 3 (três) anos. Uma atitude radical, com certeza. Mas a punição nunca foi o meu propósito (pelo menos nesse caso). Minha intenção é a conversão total das penalidades previstas por lei em um Termo de Compromisso Ambiental, que deverá ser definido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e supervisionado pelo Ministério Público Estadual.
 
·        EXERCÍCIO DE REFLEXÃO
 
Como exercício de reflexão, lembro que o avião militar Hércules C-130 se chocou, acidentalmente, na Pedra do Elefante (também conhecida como Falso Pão de Açúcar), que possui quase a mesma metragem em altitude do Pão de Açúcar (que é 17 metros mais baixo que a Pedra do Elefante). E se o Hércules C-130 tivesse se chocado sobre o Pão de Açúcar ? Como agiriam os familiares dos turistas desavisados ou os proprietários das operadores dos bondinhos ? A indiferença dos envolvidos e da opinião pública seria igual àquela que tem sido manifestada com a biodiversidade que integra a Mata Atlântica ? Estaria, então, o interesse privado desprendido de seus valores materiais da mesma forma que trata o patrimônio público ?
 
·        OPORTUNISMO EM NOME DA SOLIDARIEDADE
 
Curiosamente, em meio a discussão originada em torno da notícia (inverídica) de iniciativa de “Ação judicial contra a Força Aérea Brasileira”, o secretário municipal de Urbanismo, Meio Ambiente e Controle Urbano de Niterói, Fernando Guida,  declarou  que já teria determinado à sua equipe técnica a elaboração de estudos para reflorestar a área atingida pelo Hércules C-130, informando, também, que estaria disposto a homenagear os familiares das vítimas do acidente com o plantio de árvores. O ilustre secretário municipal esqueceu de dizer que não é da sua competência administrativa ou legal desenvolver qualquer projeto de recomposição vegetal dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca (área de domínio estadual), bem como assumir publicamente a responsabilidade de negociação para reparação dos danos causados ao meio ambiente no local. O oportunismo em nome da solidariedade ofertados pela autoridade municipal revela, no mínimo, um comportamento eleitoreiro, uma vez que em cinco anos a frente da gestão ambiental do município de Niterói não desenvolveu qualquer projeto de recuperação de áreas degradadas no interior do Parque Estadual da Serra da Tiririca.
 
·        DESRESPEITO ÀS VÍTIMAS
 
No momento em que ocorreu o acidente, estava na região. Participei de todo o processo de resgate das vítimas. Auxiliei as equipes de resgate a chegar ao local da queda do avião. Fiquei disponível durante 6 (seis) horas, em meio a neblina e chuva forte. Cumpri com minha consciência, mas não poderia deixar de avaliar os aspectos negativos ao patrimônio público ambiental. Não agi em desrespeito às vítimas ou seus familiares.
Durante a audiência prevista com o Chefe do Estado Maior do 3º Comando Aéreo Regional, será entregue, em nome da Frente de Defesa da Serra da Tiririca, MOÇÃO DE PESAR pelo falecimento dos militares envolvidos no acidente.
 
      Mesmo na expectativa de ter prestado os esclarecimentos necessários para o pleno entendimento da iniciativa de representação oferecida ao Ministério Público Estadual, referente a responsabilidade civil da Força Aérea Brasileira (FAB) na degradação do patrimônio público ambiental, disponibilizo meu telefone pessoal para maiores esclarecimentos.
 
      Atenciosamente,
     
Gerhard Sardo
Membro da coordenação da
FRENTE DE DEFESA DA SERRA DA TIRIRICA
 
 
Niterói, 22/10/01.
 
 
End.
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