14/12/2001
Recebido de Sergio Mesquita - mesquita@redebrasil.tv.br
Um nome para o MEC: o reitor Uchôa

ELIO GASPARI


No reinado de um professor aposentado da Universidade de São Paulo (FFHH, R$ 5 mil por mês) e de um ex-reitor da Unicamp (Paulo Renato Souza, R$ 12 mil, em breve) a política de fortalecimento do ensino superior do governo conseguiu sua marca mais prodigiosa: levou um analfabeto para uma faculdade de direito. O programa “Fantástico” mostrou a história do padeiro Severino da Silva, de 27 anos, que sua reportagem inscreveu no vestibular da Universidade Estácio de Sá, no Rio. Ele marcou “A” e “B” alternadamente em todas as questões de múltipla escolha. A redação, entregou em branco.

Quando Severino estava sendo examinado, o ministro da Educação dedicava-se a insultar os professores grevistas das universidades federais. Mais: tomou uma providência burocrática facilitando a criação de novas faculdades privadas.

À primeira vista, o que há de absurdo na história da Universidade Estácio de Sá é que nela um analfabeto consegue ser selecionado para cursar sua faculdade de direito.

À segunda vista, isso não tem a menor importância. Um governo valente venderia diplomas de advogado nas papelarias. Poderia vender também diplomas de jornalismo, administração, economia, marketing, história e sociologia. Quem estivesse interessado em aprender, iria para a universidade, já quem estivesse a fim de um diploma, passaria na papelaria. Em apenas três dos sete anos do mandarinato Cardoso-Souza, a Universidade Estácio de Sá passou de 23,6 mil alunos para 34 mil. Ultrapassou a Universidade Federal do Rio de Janeiro e tudo indica que antes da posse do novo presidente terá ultrapassado a USP.

Graças ao repórter Antonio Gois, pode-se ouvir a douta palavra de seu reitor, João Uchôa Cavalcanti Neto. Bastam três pérolas:

1) “As pesquisas não valem nada. A gente olha todo mundo fazendo tese, pesquisa e tal, mas não tem nenhuma sendo aproveitada. É uma inutilidade pomposa, é uma perda de tempo federal. As faculdades não fazem pesquisa porque não querem jogar dinheiro fora.”

2) “Estou interessado no Brasil? Não. Na cidadania? Também não. Na solidariedade? Também não. Estou interessado na Estácio de Sá... ...uma instituição que quer dar o melhor ensino possível às pessoas.”

3) “Se você chega ao Nordeste, em certas regiões, tem um menino trabalhando com 12 anos... ...aí vem o cara com a educação e diz que ele tem que ir para o colégio. Não tem que ir para o colégio, não. Ele pode não ir e estar muito bem.”

À primeira vista, quando o reitor da maior universidade de um país diz coisas assim algo de muito ruim está acontecendo.

À segunda vista, o que o doutor Uchôa acha não tem a menor importância. Como não teria importância a opinião do dono da papelaria que viesse a vender diplomas de advogado. O padeiro Severino passou no vestibular da Estácio de Sá porque ela vende vagas para quem quiser comprá-las. Ela explicou que o padeiro foi o último colocado na prova, pois tirou nono lugar num exame onde havia 20 vagas e nove candidatos. Se King Kong fosse o décimo, também entraria.

Noves fora as PUCs e a maioria das instituições comunitárias do Sul, o negócio de boa parte das universidades privadas é vender vagas e facilitar o acesso a diplomas. Nisso têm como cúmplice o tucanato do MEC. Gostam também de uma burla no cumprimento da lei que as desobriga de pagar ao INSS em troca de atividades filantrópicas. Nisso têm como cúmplice o pefelê do Ministério da Previdência. É mais fácil admitir que um analfabeto se forme em direito do que acreditar na história segundo a qual esses estabelecimentos são entidades sem resultados lucrativos.

Em sete anos, o governo estimulou, até com financiamentos do BNDES, um inchaço dessa rede inferior de ensino. No varejo, elas iludem os alunos. No atacado, engordam as estatísticas do triunfalismo oficial. Um triunfalismo que se dedica a sucatear as universidades públicas e desmoralizar seus professores. Num procedimento inédito na história nacional, o governo associou-se às superstições produtivistas para tentar convencer os outros de que as universidades públicas são ocupadas por alunos privilegiados e mestres desocupados. Conseguiram fazer da Estácio de Sá a maior universidade do país.

O professor Paulo Renato Souza deverá deixar o ministério no ano que vem, para disputar uma eleição qualquer. Será que ele seria capaz de dar a FFHH três boas razões para não colocar o reitor Uchôa Cavalcanti no seu lugar?

ELIO GASPARI é colunista do GLOBO.