ELIO GASPARI
No reinado de um professor aposentado da Universidade de São Paulo
(FFHH, R$ 5 mil por mês) e de um ex-reitor da Unicamp (Paulo Renato
Souza, R$ 12 mil, em breve) a política de fortalecimento do ensino
superior do governo conseguiu sua marca mais prodigiosa: levou
um analfabeto para uma faculdade de direito. O programa “Fantástico”
mostrou a história do padeiro Severino da Silva, de 27 anos, que
sua reportagem inscreveu no vestibular da Universidade Estácio
de Sá, no Rio. Ele marcou “A” e “B” alternadamente
em todas as questões de múltipla escolha. A redação, entregou
em branco.
Quando Severino estava sendo examinado, o ministro da Educação
dedicava-se a insultar os professores grevistas das universidades
federais. Mais: tomou uma providência burocrática facilitando
a criação de novas faculdades privadas.
À primeira vista, o que há de absurdo na história da Universidade
Estácio de Sá é que nela um analfabeto consegue ser selecionado
para cursar sua faculdade de direito.
À segunda vista, isso não tem a menor importância. Um governo
valente venderia diplomas de advogado nas papelarias. Poderia
vender também diplomas de jornalismo, administração, economia,
marketing, história e sociologia. Quem estivesse interessado em
aprender, iria para a universidade, já quem estivesse a fim de
um diploma, passaria na papelaria. Em apenas três dos sete anos
do mandarinato Cardoso-Souza, a Universidade Estácio de Sá passou
de 23,6 mil alunos para 34 mil. Ultrapassou a Universidade Federal
do Rio de Janeiro e tudo indica que antes da posse do novo presidente
terá ultrapassado a USP.
Graças ao repórter Antonio Gois, pode-se ouvir a douta palavra
de seu reitor, João Uchôa Cavalcanti Neto. Bastam três pérolas:
1) “As pesquisas não valem nada. A gente olha todo mundo
fazendo tese, pesquisa e tal, mas não tem nenhuma sendo aproveitada.
É uma inutilidade pomposa, é uma perda de tempo federal. As faculdades
não fazem pesquisa porque não querem jogar dinheiro fora.”
2) “Estou interessado no Brasil? Não. Na cidadania? Também
não. Na solidariedade? Também não. Estou interessado na Estácio
de Sá... ...uma instituição que quer dar o melhor ensino possível
às pessoas.”
3) “Se você chega ao Nordeste, em certas regiões, tem um
menino trabalhando com 12 anos... ...aí vem o cara com a educação
e diz que ele tem que ir para o colégio. Não tem que ir para o
colégio, não. Ele pode não ir e estar muito bem.”
À primeira vista, quando o reitor da maior universidade de um
país diz coisas assim algo de muito ruim está acontecendo.
À segunda vista, o que o doutor Uchôa acha não tem a menor importância.
Como não teria importância a opinião do dono da papelaria que
viesse a vender diplomas de advogado. O padeiro Severino passou
no vestibular da Estácio de Sá porque ela vende vagas para quem
quiser comprá-las. Ela explicou que o padeiro foi o último colocado
na prova, pois tirou nono lugar num exame onde havia 20 vagas
e nove candidatos. Se King Kong fosse o décimo, também entraria.
Noves fora as PUCs e a maioria das instituições comunitárias do
Sul, o negócio de boa parte das universidades privadas é vender
vagas e facilitar o acesso a diplomas. Nisso têm como cúmplice
o tucanato do MEC. Gostam também de uma burla no cumprimento da
lei que as desobriga de pagar ao INSS em troca de atividades filantrópicas.
Nisso têm como cúmplice o pefelê do Ministério da Previdência.
É mais fácil admitir que um analfabeto se forme em direito do
que acreditar na história segundo a qual esses estabelecimentos
são entidades sem resultados lucrativos.
Em sete anos, o governo estimulou, até com financiamentos do BNDES,
um inchaço dessa rede inferior de ensino. No varejo, elas iludem
os alunos. No atacado, engordam as estatísticas do triunfalismo
oficial. Um triunfalismo que se dedica a sucatear as universidades
públicas e desmoralizar seus professores. Num procedimento inédito
na história nacional, o governo associou-se às superstições produtivistas
para tentar convencer os outros de que as universidades públicas
são ocupadas por alunos privilegiados e mestres desocupados. Conseguiram
fazer da Estácio de Sá a maior universidade do país.
O professor Paulo Renato Souza deverá deixar o ministério no ano
que vem, para disputar uma eleição qualquer. Será que ele seria
capaz de dar a FFHH três boas razões para não colocar o reitor
Uchôa Cavalcanti no seu lugar?
ELIO GASPARI é colunista do GLOBO.