O presidente da República fez, recentemente, a patética afirmação
de que foi pego de surpresa pela dimensão da crise energética.
O povo ficou perplexo com um presidente desinformado ou, pior,
que sabia do problema, mas achava que a crise só ocorreria depois
de 2003, quando ele estivesse fora do governo. Aí, o problema
não seria mais dele, apenas de todo o povo e de seu sucessor.
Em qualquer dos casos, o povo foi pego de surpresa também com
o voto que deu em 1998.
Daqui para frente temos o direito de esperar que o presidente
e o povo não sejam mais pegos de surpresa. Para colaborar, vão
aqui vinte alertas de riscos para o presidente e um para o povo:
1) O primeiro alerta é sobre a Amazônia. O presidente não
pode dizer-se surpreso com o resultado da destruição da floresta
pela queima constante ou com sua internacionalização pela cobiça
externa.
2) A universidade pública está sendo esvaziada e sucateada apesar
de todo esforço de seus professores, alunos e servidores.
3) A desigualdade social está aumentando. O presidente não
terá o direito de dizer que está surpreendido quando descobrir
que o País vive uma apartação, um apartheid social.
4) O presidente tem a obrigação de saber que o Brasil pode,
a qualquer momento, enfrentar grave crise cambial de conseqüências
devastadoras, muito mais graves do que a crise energética.
5) O mundo está vivendo um tempo onde o saber é a principal
riqueza de um povo, e, apesar de pequenos avanços, o Brasil
continua se distanciando cada vez mais dos países que investem
na educação de seu povo.
6) Doenças conhecidas ou novas podem chegar a qualquer momento
e surpreender o Brasil com epidemias.
7) O presidente continua sem perceber o sucateamento da infra-estrutura
econômica nacional. As estradas já padecem dos apagões dos buracos;
os rios deixaram de ser navegáveis, o transporte urbano está
caótico.
8) O país que reage à crise energética não reage ao fato
de ser um dos pontos de atração do turismo sexual com crianças.
E o presidente se dirá pego de surpresa quando a repulsa internacional
denunciar o Brasil.
9) Se a corrupção não for estancada, seremos surpreendidos
pela corrupção generalizada, como já existe em alguns países
onde as relações sociais não são definidas conforme a lei, mas
conforme o valor da propina.
10) O presidente não escuta o verdadeiro descontentamento
que ocorre nos quartéis, contra o entreguismo, a falta de responsabilidade,
a corrupção, e também o descaso com as forças armadas, seus
equipamentos e seus salários.
11) Uma onda de degradação moral avança sobre o território
nacional, sob a forma de relaxamento dos costumes, valorização
do individualismo e perda do sentimento nacional.
12) O Governo tem sido insensível ao descontentamento dos
servidores civis, que têm sido tratados como estorvo descartável.
Se nada for feito, vamos ser surpreendidos por apagões de servidores
descontentes.
13) O povo brasileiro está com raiva. Os governos que não
perceberem isso pagarão elevado preço, ou deixarão um preço
ainda maior, para o futuro, quando a raiva se transformar em
revolta.
14) O Brasil é um país endividado com suas crianças, suas
florestas, índios, negros, suas mulheres, seus desempregados,
sem-teto, sem-terra. Essas dívidas não pagas estão se acumulando
e serão cobradas, com juros, algum dia.
15) Nossas cidades são bombas-relógio prontas para explodir,
e tem gente que se dirá surpresa.
16) O patrimônio cultural brasileiro está sendo dilapidado
pelo abandono de nossas heranças, a invasão cultural e falta
de apoio às artes. Em breve um presidente se dirá surpreso ao
ter que fazer seu discurso em inglês, vivendo em um país sem
cultura própria, sem herança cultural.
17) O patrimônio ecológico do Brasil já está em processo
de apagão. Espécies estão sendo extintas, a água sendo poluída,
o ar sujo, o verde ficando cinza das queimadas.
18) O sertão nordestino está abandonado. Qualquer dia, o
presidente desperta para a percepção de que temos aqui o quadro
de terror das fomes africanas, com o País incluído no circuito
das entidades beneficentes internacionais, centro de atração
de fotógrafos que registram o horror da miséria.
19) O Governo diz que inseriu o Brasil na globalização. Não
percebe que foi a globalização que incorporou parte de nossa
população ao mundo global do consumo e da especulação, destruindo
valores nacionais, dividindo o País.
20) Em um mundo integrado, o presidente não deve ser surpreendido
apenas com o que depende de decisões locais. O presidente brasileiro
já deveria ter despertado para gritar contra a tragédia que
vivem nossos irmãos africanos, contra a irresponsabilidade dos
que estão provocando o aquecimento da Terra.
É possível que o presidente pouco se importe com estes alertas.
Afinal, ele não os levará a sério, ou imaginará que esses problemas
vão explodir depois de 2003. Por isso, talvez não seja a ele
que devamos alertar; mas ao povo, que em 2002 elegerá um presidente.
E deve cuidar para não se surpreender depois com as surpresas.
Cristovam Buarque é professor da UnB e autor de Admirável
Mundo Atual (Editora Geração), seu livro mais recente.