20/08/2001
Recebido por mail do Alfredo Castinheiras
ALERTA
O presidente da República fez, recentemente, a patética afirmação de que foi pego de surpresa pela dimensão da crise energética. O povo ficou perplexo com um presidente desinformado ou, pior, que sabia do problema, mas achava que a crise só ocorreria depois de 2003, quando ele estivesse fora do governo. Aí, o problema não seria mais dele, apenas de todo o povo e de seu sucessor. Em qualquer dos casos, o povo foi pego de surpresa também com o voto que deu em 1998.

Daqui para frente temos o direito de esperar que o presidente e o povo não sejam mais pegos de surpresa. Para colaborar, vão aqui vinte alertas de riscos para o presidente e um para o povo:
 
1) O primeiro alerta é sobre a Amazônia. O presidente não pode dizer-se surpreso com o resultado da destruição da floresta pela queima constante ou com sua internacionalização pela cobiça externa.

2) A universidade pública está sendo esvaziada e sucateada apesar de todo esforço de seus professores, alunos e servidores.
3) A desigualdade social está aumentando. O presidente não terá o direito de dizer que está surpreendido quando descobrir que o País vive uma apartação, um apartheid social.
4) O presidente tem a obrigação de saber que o Brasil pode, a qualquer momento, enfrentar grave crise cambial de conseqüências devastadoras, muito mais graves do que a crise energética.
5) O mundo está vivendo um tempo onde o saber é a principal riqueza de um povo, e, apesar de pequenos avanços, o Brasil continua se distanciando cada vez mais dos países que investem na educação de seu povo.
6) Doenças conhecidas ou novas podem chegar a qualquer momento e surpreender o Brasil com epidemias.
7) O presidente continua sem perceber o sucateamento da infra-estrutura econômica nacional. As estradas já padecem dos apagões dos buracos; os rios deixaram de ser navegáveis, o transporte urbano está caótico.
8) O país que reage à crise energética não reage ao fato de ser um dos pontos de atração do turismo sexual com crianças. E o presidente se dirá pego de surpresa quando a repulsa internacional denunciar o Brasil.
9) Se a corrupção não for estancada, seremos surpreendidos pela corrupção generalizada, como já existe em alguns países onde as relações sociais não são definidas conforme a lei, mas conforme o valor da propina.
10) O presidente não escuta o verdadeiro descontentamento que ocorre nos quartéis, contra o entreguismo, a falta de responsabilidade, a corrupção, e também o descaso com as forças armadas, seus equipamentos e seus salários.
11) Uma onda de degradação moral avança sobre o território nacional, sob a forma de relaxamento dos costumes, valorização do individualismo e perda do sentimento nacional.
12) O Governo tem sido insensível ao descontentamento dos servidores civis, que têm sido tratados como estorvo descartável. Se nada for feito, vamos ser surpreendidos por apagões de servidores descontentes.
13) O povo brasileiro está com raiva. Os governos que não perceberem isso pagarão elevado preço, ou deixarão um preço ainda maior, para o futuro, quando a raiva se transformar em revolta.
14) O Brasil é um país endividado com suas crianças, suas florestas, índios, negros, suas mulheres, seus desempregados, sem-teto, sem-terra. Essas dívidas não pagas estão se acumulando e serão cobradas, com juros, algum dia.
15) Nossas cidades são bombas-relógio prontas para explodir, e tem gente que se dirá surpresa.
16) O patrimônio cultural brasileiro está sendo dilapidado pelo abandono de nossas heranças, a invasão cultural e falta de apoio às artes. Em breve um presidente se dirá surpreso ao ter que fazer seu discurso em inglês, vivendo em um país sem cultura própria, sem herança cultural.
17) O patrimônio ecológico do Brasil já está em processo de apagão. Espécies estão sendo extintas, a água sendo poluída, o ar sujo, o verde ficando cinza das queimadas.
18) O sertão nordestino está abandonado. Qualquer dia, o presidente desperta para a percepção de que temos aqui o quadro de terror das fomes africanas, com o País incluído no circuito das entidades beneficentes internacionais, centro de atração de fotógrafos que registram o horror da miséria.
19) O Governo diz que inseriu o Brasil na globalização. Não percebe que foi a globalização que incorporou parte de nossa população ao mundo global do consumo e da especulação, destruindo valores nacionais, dividindo o País.
20) Em um mundo integrado, o presidente não deve ser surpreendido apenas com o que depende de decisões locais. O presidente brasileiro já deveria ter despertado para gritar contra a tragédia que vivem nossos irmãos africanos, contra a irresponsabilidade dos que estão provocando o aquecimento da Terra.

É possível que o presidente pouco se importe com estes alertas. Afinal, ele não os levará a sério, ou imaginará que esses problemas vão explodir depois de 2003. Por isso, talvez não seja a ele que devamos alertar; mas ao povo, que em 2002 elegerá um presidente. E deve cuidar para não se surpreender depois com as surpresas.
 
Cristovam Buarque é professor da UnB e autor de Admirável Mundo Atual (Editora Geração), seu livro mais recente.