26/09/2001
Colaboração de Sergio Mesquita
COLETÂNEA
 
 
 
O FACTOR DEUS

Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.
 
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.
 
Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras.
 
Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.
 
As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e
monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar
cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.
De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações,tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam
iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real.
Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que
deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
 
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro
humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
 
Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos.
 
Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.
 
José Saramago, Escritor, Prémio Nobel da Literatura »
 
 
 
''Um divisor de águas para os EUA''
(Entrevista de Noam Chomsky a GRABRIELA MÁXIMO - JB, 16/9/2001)
Noam Chomsky: um pensador crítico da política externa dos Estados Unidos.
 

Desde terça-feira, um dos mais importantes pensadores americanos, Noam Chomsky, professor do Massachussetts Institute of Technology (MIT), dá entrevistas uma atrás da outra, faz conferências e palestras e tenta, assim como todo americano, superar o trauma deixado pelos atentados terroristas contra as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e ao prédio do Pentágono, em Washington. Chomsky, um pensador dissidente do establishment
político americano, é chamado a ajudar a encontrar respostas às perguntas que se multiplicam numa superpotência consumida pelo medo e pela perplexidade, e com desejo surdo de vingança que cresce diante do cenário de devastação deixado pelo terror. Para ele, os atentados no coração dos Estados Unidos já são um divisor de águas na História não só do país mas do Ocidente rico de um modo geral. Esta é a primeira vez em quase dois séculos que os Estados Unidos são atacados em seu próprio território. É a primeira vez também que um país do Primeiro Mundo é atacado em casa, nessas proporções, supostamente por agressores do Terceiro Mundo. ''É uma mudança gigantesca'', disse Chomsky em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil, de sua casa, em Boston.
 
Crítico contundente da política externa de seu país, o pensador americano lembra que o principal suspeito dos atentados, o saudita Osama bin Laden, faz parte de um grupo de fundamentalistas islâmicos que foi treinado e
armado polos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Hoje, afirma, há um profundo ressentimento em relação aos EUA no Oriente Médio.
 
A sociedade americana dificilmente será a mesma depois da última terça-feira. O que vai mudar na cabeça das pessoas?
 
Os atentados foram um divisor de águas para os Estados Unidos e para o Ocidente de um modo geral. Se olharmos para a História americana, esta é a primeira vez desde a guerra de 1812, ou seja, em 200 anos, que o território
nacional foi atacado. Pode-se falar de Perl Harbour, mas lembremos que os dois lugares atacados na época, Havaí e as Filipinas, eram colônias e não território nacional. Por ser o primeiro ataque ao território, representa uma grande mudança. O mesmo é verdadeiro para a Europa e o Ocidente de um modo geral. A Europa passou por guerras sangrentas, mas foram internas. O Sul – o que hoje chamamos de Terceiro Mundo, as ex-colônias - nunca atacou a Europa, mas foi atacado por ela por centenas de anos. Esta é portanto a primeira vez que a História toma uma outra direção: as grandes potências guerreiras são as vítimas e não os perpetradores. É uma mudança gigantesca.
 
E de que forma a seu ver esta mudança se manifestou ao longo dos últimos
dias?
 
Pode-se observar isto na reação dos Estados Unidos e particularmente na reação da Europa, que adotou uma postura reflexiva, considerando o episódio algo sem precedentes, que nunca aconteceu e etc. E é verdade para o
Ocidente. Mas não é verdadeiro para o resto do mundo. Esta foi a norma para o resto do mundo por muito tempo. Mas esta cultura imperial está profundamente arraigada e é muito difícil para as pessoas entenderem.
 Sim, este episódio é um marco e também representa uma grande mudança. O New York Times, num artigo de hoje (sexta-feira), diz que a partir de agora ou se colabora com os Estados Unidos ou será destruído. Isto não tem precedente histórico.
 
Que tipo de reação pode-se esperar dos Estados Unidos a partir de agora?
 
Espero algum tipo de operação violenta. Ela será realizada com o conhecimento, porque eles certamente sabem, de que isto é exatamente o que pessoas como Osama bin Laden [para os EUA, o principal suspeito dos  atentados]desejam porque vai ajudá-las a reunir apoio.
 
E como responder a um inimigo pouco convencional como Bin Laden?
 
Da última vez que eles (as autoridades americanas) decidiram atacar Osama bin Laden, bombardearam uma fábrica de produtos farmacêuticos no Sudão que nada tinha com isto. Morreram milhares de pessoas, mas nunca se saberá ao certo, porque quando o Sudão pediu uma investigação às Nações Unidas, os Estados Unidos bloquearam. Não tenho dúvida, eles vão atacar onde quiserem.
 
O que está por trás dos atentados em Nova Iorque e Washington: ódio aos Estados Unidos, religião sentimento anti-ocidental?
 
Vamos supor, talvez corretamente, que os ataques tenham sido obra de um grupo próximo de Osama bin Laden, os chamados afeganis, que não são necessariamente afegãos, incluindo o próprio Bin Laden [que é saudita]. Foram pessoas recrutadas para a guerra no Afeganistão contra os russos, armados e treinados pelos Estados Unidos. Os serviços de inteligência do Paquistão recrutavam os elementos mais violentos que conseguiam encontrar e estes eram radicais islâmicos do Oriente Médio. Podemos ter uma boa noção do que eles querem hoje. Osama bin Laden foi entrevistado algumas vezes pelo jornalista britânico Robert Fisk, o mais eminente correspondente no Oriente
Médio há décadas. Ele deixa claro o que quer. E o que ele quer, em suas próprias palavras, é liberar os países islâmicos de agressores estrangeiros - primeiros os russos do Afeganistão e depois os americanos da Arábia Saudita - e também derrubar os regimes corruptos de Arábia Saudita, Egito, Jordânia e outros para implantar o que eles consideram a forma correta de um regime islâmico. Esta parece ser a maior preocupação. Por isso, agora pessoas como Osama bin Laden estão rezando por um ataque massivo para que possam recrutar mais gente. Naquela região há um enorme ressentimento pelas políticas dos Estados Unidos, em primeiro lugar, e da Grã-Bretanha na região. Um grande número de pessoas sofreu muito por causa delas.
 
Na Guerra Fria, era o comunismo contra o capitalismo. Há o risco de uma nova polarização, agora opondo o Ocidente ao mundo islâmico?
 
Não é inteiramente verdadeiro sobre a guerra fria. Pegue o Brasil, por exemplo. Quando aconteceu o golpe militar no Brasil, foi verdadeiramente contra o comunismo? Claro não. E o mesmo vale para quase todos os acontecimentos da Guerra Fria. Os conflitos daquela época tinham a Guerra Fria como pano de fundo. Mas os Estados Unidos e a Rússia usaram os conflitos da Guerra Fria como uma ferramenta para justificar intervenções que aconteceram por razões bem diferentes. Quando os Estados Unidos apoiaram os golpes no Brasil, Argentina e Chile, em outras partes da América Latina e no Sudeste da Ásia, as questões da Guerra Fria eram o pano de fundo. Estes tipos de acontecimentos precedem a Guerra Fria, atravessaram a Guerra Fria e continuaram depois da Guerra Fria. Olhe o caso do Oriente Médio. Imediatamente depois do colapso da União Soviética, o governo de George Bush [pai do atual presidente americano, George W. Bush], em mensagem ao Congresso sobre o orçamento militar, em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, fez uma análise mundial e referiu-se ao Oriente Médio. Disse: Temos que manter a maior parte de nossas forças de intervenção no Oriente Médio. E deixou claro que os russos não eram os responsáveis pelas ameaças. O que era bem verdadeiro. Eles fingiram rivalidade nos 40 anos precedentes mas era
apenas um pretexto. Bush foi franco, mas felizmente para ele, a mídia calou-se a este respeito.
 
Há risco de uma disseminação de um sentimento anti-Islã nos Estados Unidos e em outros países ocidentais?
 
Não anti-Islã. Falar oposição ao Islã é extremamente enganoso. Vamos observar os fatos: o maior país islâmico do mundo é a Indonésia, que é um forte aliado dos Estados Unidos. Sempre foi. Quando houve o golpe militar na
Indonésia em 1965, extremamente sangrento, os Estados Unidos apoiaram, assim como apoiaram o golpe no Brasil, em 1964, e essencialmente pelas mesmas razões. Fora o talibã no Afeganistão, o mais radical Estado islâmico é a
Arábia Saudita, um cliente dos Estados Unidos. Nos anos 80, os chamados afeganis, Osama bin laden e outros, recrutados, armados e treinados pela CIA, eram radicais fundamentalistas islâmicos. Ou olhe o que aconteceu nos
anos 80, quando os Estados Unidos travaram uma guerra na América Central, um dos maiores inimigos foi a Igreja Católica. É só olhar a História e os choques de civilizações. Nos Bálcãs, por exemplo, os Estados Unidos pegaram
os muçulmanos da Bósnia como seus clientes. E eles estava lutando contra os cristãos ortodoxos.
 
O que está em jogo agora?
 
O que aconteceu é novo em escala, mas não é a primeira vez. Vinte anos atrás, em 1983, o Exército dos Estados Unidos, que é de longe a força militar mais poderosa do mundo, foi expulso do Líbano por um terrorista suicida. Quando quando um homem-bomba se lançou contra uma base militar americana, matando vários soldados, os Estados Unidos se retiraram. Terroristas suicidas são incontroláveis.
Então como as Forças Armadas, com seus métodos convencionais, poderão lidar com este tipo de inimigo?
 
Eles não podem assim como não conseguiram no Líbano. Estes são problemas que terão de ser tratados encarando-se as questões que levam a esta situação. Elas crescem a partir de alguma coisa. Não se trata de justificativa para o crime, mas elas nascem de alguma coisa, não surgem do nada. Vêm de uma enorme reação popular de hostilidade em relação às políticas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha para a região. Tome por exemplo o Iraque. Não se sabe quantas pessoas morreram por causa das sanções. Uns dois anos atrás, a secretária de Estado   Madeleine]Albright, diante do número de meio milhão de crianças mortas, disse bem este é um preço alto mas estamos dispostos a pagá-lo. Imagine o que sentem as pessoas da região. Pense nos territórios ocupados. As pessoas no Ocidente podem decidir não prestar atenção, mas as pessoas lá na região definitivamente prestam atenção e sabem muito bem quem é o responsável. Helicópteros, aviões militares e mísseis atacam alvos civis nos territórios ocupados. São helicópteros, aviões militares e mísseis americanos - e eles sabem disto.
 
O senhor vê o risco de uma escalada de violência, com reação seguida de contra-reação e assim por diante?
 
É muito provável. Conhecemos este tipo de dinâmica, embora em menor escala. Na Irlanda do Norte, por exemplo, os dois lados querem matar em retaliação ao último ataque. Sabemos como acontece. É uma escalada de violência.
 
Este tipo de terror pode se espalhar para a Europa?
 
Sem dúvida. Se eles cooperarem com os Estados Unidos, sem dúvida irá acontecer.
 
E que tipo de guerra o senhor acha que virá?
 
Provavelmente o tipo de guerra que vimos na terça-feira pela primeira vez no Ocidente, mas que é muito familiar ao Terceiro Mundo, onde tem sido assim por séculos.
 
Que armas devem ser empregadas contra um inimigo difícil de identificar?
 
Eles vão usar a tecnologia. O que os Estados Unidos estão fazendo agora é o que chamam de revolução na tecnologia militar. A guerra dos Bálcans foi um exemplo disto, a guerra do Iraque também. É uma guerra na qual se ataca de uma boa distância, com uma força massiva
 
A superpotência que gasta bilhões de dólares em defesa e atém planeja construir um escudo antimísseis no espaço, levando a corrida armamentista para as galáxias, mostrou ser vulnerável ...
 
O escudo antimísseis não é destinado à defesa. Lembre-se. Todo aparato militar ofensivo da História sempre foi disfarçado de defensivo. Você consegue vender algo como defesa, mas não consegue vender como ataque. Este é um programa de militarização do espaço e o comando militar para o espaço é bem franco em relação a isto. Há documentos que explicam muito claramente o que estão fazendo. Querem fazer a militarização do espaço para proteger seus interesses comerciais e seus investimentos. Isto vai aumentar as desigualdades entre os que têm e os que não têm e vai levar a mais confrontos.
 
Desde a manhã de terça-feira, os americanos sentem que não estão seguros em sua própria casa. Que conseqüências podem vir deste sentimento de vulnerabilidade?
 
Os americanos estão sentindo-se vulneráveis pela primeira vez em 200 anos e há o crescimento de um sentimento nacionalista.
 
E o que o senhor, pessoalmente, desejaria que mudasse a partir de agora na mentalidade da sociedade americana?
 
O que espero é que, ao invés de achar que têm de ser lideradas por sentimentos de vingança, mesmo sabendo que isto levará a mais violência, o que as pessoas deveriam fazer é reavaliar a situação, perguntando qual é o seu pano de fundo e o que podemos fazer para melhorar. É a única forma de proteger a si próprio. Mas com o país entrado num frenesi nacionalista é difícil pensar até mesmo na própria segurança.
 
 
 

As novas relações internacionais
 

Ricardo Seitenfus
 
O gesto extremo de pessoas ordinárias despertou bruscamente o mundo para a sua própria estreiteza. Antes que os desdobramentos do ataque de 11 de setembro venham a marcar com ainda mais vigor as relações internacionais, já são visíveis alguns pontos de ruptura. Eles podem resultar numa evolução positiva, reforçando a cooperação internacional, ou negativa, com o avanço do nacionalismo, do maniqueísmo e da xenofobia.
 
Em primeiro lugar, a idéia de que a história havia acabado mostrou-se absurda: ainda há espaço para o inesperado, o curso do mundo não está definido. O determinismo com que todos os fatos eram apresentados deu lugar à incerteza. Nada é inevitável, a começar pelo atual modelo de globalização. Sendo assim, nenhuma submissão é obrigatória.
Num mundo em mutação, os gigantes pagam o preço de sua própria força. Não se trata de uma interpretação positiva do terrorismo, mas da simples constatação de que há elementos outros em jogo além dos fatores econômicos e que o determinismo é, antes, um argumento a sustentar o conformismo. Em segundo lugar, a pauta de governo da administração Bush foi atingida em sua essência.
 
O presidente americano acreditou que poderia conduzir uma política externa à la carte, agindo no exterior somente em último caso, com custo mínimo possível, guiado apenas por seus interesses internos. Entre os exemplos dessa decisão política está a recusa em subscrever importantes convenções internacionais, como o Protocolo de Kyoto. Mas, sobretudo, há o incondicional apoio a uma das partes no gravíssimo conflito no Oriente Médio.
 
Desabou com as torres gêmeas a idéia de que "a paz é a guerra alhures". Uma eventual "paz dos cemitérios" entre israelenses e palestinos pode significar a guerra no Ocidente. O estilhaço atroz de um conflito criado pela comunidade internacional nos anos 40, que ela desde então se recusa a enfrentar, talha o horizonte do novo século.
Mais do que uma prova de que nenhum lugar do planeta é intocável, já que a própria superpotência foi atacada em seu coração financeiro e militar, o 11 de setembro é um desesperado apelo para que Washington seja mais do que simples guardiã do status quo. Ora, Bush sai hoje da concha e volta-se para a comunidade internacional, dirigindo-se inclusive a Cuba, com inédita consciência de pertencer a um mundo interligado e dependente. Surge então a terceira
questão: sobre que bases será construída essa nova consciência coletiva internacional?
 
É espúria a tentativa de infantilização do mundo por meio da idéia de guerra do bem contra o mal. É até  compreensível que o pitoresco Bush apresente o mundo como um bom faroeste. Mas os EUA já colaboraram com
regimes políticos perversos, lançaram a bomba atômica e aceitam de bom grado a miséria que seu sistema  econômico provoca na maior parte do mundo. Nesse "casting", o papel de mocinho seria inverossímil.
 
É espúria a tentativa de infantilização do mundo por meio da idéia de guerra do bem contra o mal Por outro lado, a visão do bandido é fluida, aumentando o risco de atirar no próprio pé. Embora Osama bin Laden seja inimigo declarado dos EUA, estes encontram dificuldades para obter provas cabais de sua participação no ataque de 11 de setembro. Sua fortuna pessoal, em termos de custo de operações militares, é insignificante. Óbvio que o financiamento provém de outras fontes e, mais importante, que há grupos autônomos decididos a agir.
 
E aqui surge a quarta questão: como pessoas comuns, tão instruídas quanto a elite ocidental, que fizeram seus estudos na Europa e desfrutaram do "american way of life", tornam-se capazes de tais atos de barbárie?
 
O terrorista diabólico, demente, ignorante e insociável - como o pintava o imaginário ocidental- pode ser, na verdade, um homem gentil, inteligente e socialmente adaptado, que elabora com lucidez e precisão impressionantes o golpe que vai ceifar a vida de milhares de inocentes, que planeja no seu cotidiano ordinário o gesto que marcará a história.
 
Os terroristas, ao cometerem um ato de inominável covardia, foram movidos, paradoxalmente, por uma coragem impressionante, que, originando-se no fanatismo, é executada por meio do conhecimento e, portanto, da ciência. Talvez seja essa a mais terrivelmente incômoda constatação do episódio, pois mostra o quanto os serviços de inteligência são - e continuarão sendo- incapazes de combater o terrorismo suicida. A única inteligência que pode evitar a barbárie nada tem a ver com os cânones que orientam a CIA e o FBI.
O desafio é maior. Mais do que não obter a paz internacional, países como os EUA contribuem, em suas ações e omissões, para que a guerra e a injustiça perdurem em muitos rincões do mundo, conforme seus interesses estratégicos. Patente exemplo está no apoio concedido pelos americanos aos próprios talibans na luta contra os soviéticos.
 
Ora, não é a guerra ou o ataque ao mundo islâmico que coibirá essa fúria. Uma reação militar indiscriminada do Ocidente só pode potencializá-la assustadoramente. De que adianta bombardear o Afeganistão?
 
A única forma de combater os terroristas não tem apelo eleitoral nem resultado rápido. É eleger a guerra, a miséria e a intolerância como inimigos. A predominância dos interesses econômicos que caracteriza a nossa época e a submissão do espaço político coletivo ao império financeiro traz um bem-estar restrito a poucos, falso e precário.  Somente o tratamento coletivo dos problemas da humanidade, com a predominância dos interesses do homem - e não de alguns homens -, construindo o império da solidariedade e do direito, pode opor-se às barbáries da nossa época - o terrorismo entre elas.
 
Ricardo Antônio Silva Seitenfus, 53, doutor em relações internacionais pelo Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais (Genebra), é professor titular da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e professor convidado do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Universidade Paris 3).
 
 
 
 
SABIAS QUE:
 
  Se fosse possível reduzir a população do mundo inteiro a uma vila de 100 pessoas, mantendo a proporção do povo existente agora no  mundo,  tal vila seria composta de:
      
  57 Asiáticos
  21 Europeus
  14 Americanos (Norte, Centro e Sul)
  8 Africanos
  52 seriam mulheres
  48 homens
  70 não brancos
  30 brancos
  70 não cristãos
  30 cristãos
  89 seriam heterossexuais
  11 seriam homossexuais
  6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo inteiro e todos os
  6 seriam dos EUA
  80 viveriam em casas inabitáveis
  70 seriam analfabetos
  50 sofreriam desnutrição
  1 estaria para morrer
  1 estaria para nascer
  1 teria computador
  1 teria formação universitária
  Se o mundo for considerado sob esta perspectiva, a necessidade de aceitação, compreensão e educação torna-se evidente. Considere ainda que se acordaste hoje mais saudável que doente, tens mais sorte que um milhão de pessoas, que não verão a próxima semana.
  Se nunca experimentaste o perigo de uma batalha, a solidão de uma prisão, a agonia da tortura, a dor da fome, tens mais sorte que 500 milhões de habitantes no mundo. Se podes ir a igreja sem o medo de ser bombardeado,  preso ou torturado, tens mais sorte que 3 milhões de pessoas no mundo.
  Se tens comida na frigorifico, roupa no armário, um tecto sobre a cabeça, um lugar para dormir, considera-te mais rico que 75% dos habitantes deste mundo.
  Se tiveres dinheiro no banco, na carteira ou uns trocos em qualquer parte, considera-te entre os 8% das pessoas com a melhor qualidade de vida no mundo.
  Se teus pais estão vivos e ainda juntos, considera-te uma pessoa muito muito rara. Se puderes ler esta mensagem, recebeste uma dupla benção, pois alguém pensou em ti e tu não estas entre os dois mil milhões de pessoas que não sabem ler.

 
SECTARISMO

Laura Schlessinger é uma personalidade da rádio americana que distribui conselhos para pessoas que ligam para o seu show.
Recentemente ela disse que a homossexualidade é uma abominação de acordo com Levíticos 18:22 (Antigo Testamento) e não pode ser perdoado em qualquer circunstância.
O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura, escrita por um cidadão americano e também disponibilizada na Internet.
"Cara Dra. Laura:
 
Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso.
Quando alguém tenta defender a homossexualidade, por exemplo, eu simplesmente lembro que Levíticos 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate.
 
Mas eu preciso da sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como segui-las:
a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia?
b) Eu gostaria de vender a minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela?
c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24). O problema é: como é que eu digo isso a ela ? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.
d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses?
e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo?
f) Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?
g) Levíticos 21:20 afirma que eu não me posso aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?
h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos19:27. Como devem eles morrer?
i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano sem usar luvas? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco)
j) O meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levíticos 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levíticos 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los numa cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?
 
Eu sei que você estudou essas coisas a fundo e então estou confiante de que me possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável.
Seu discípulo e fã ardoroso."
 
 
 

SOLIDARIEDADE ÀS VÍTIMAS DO WORLD TRADE CENTER
 
Se você ainda está chocado com as imagens da semana, aproveite para fazer um minuto de silêncio em homenagem aos 10.000 (?) americanos, a maioria civis inocentes, mortos covardemente por terroristas que ainda não se sabe quem são.
 
Já que você está em silêncio, fique mais 13 minutos em homenagem aos 13.000 civis iraquianos mortos em 1991 por ordem do Bush Pai. Aproveite para lembrar que naquela ocasião os americanos também fizeram festa, como ao palestinos fizeram semana passada.
 
Emende mais 20 minutos pêlos 200.000 iranianos mortos pêlos iraquianos com armas e dinheiro fornecidos a Sadam Hussein (ainda novinho na época) pêlos mesmos americanos que mais tarde virariam sua artilharia contra ele.
 
Mais 15 minutos pêlos russo e 150.000 Afeganistão mortos pelo Taliban, também com armas e dinheiro americano.
 
Mais 10 minutos pêlos 1.000.000 de japoneses mortos direta e diretamente em Hiroshima e Nagazaki, também por ação direta da águia.
 
Você já está em silêncio uma hora (um minuto pêlos americanos e 59 por suas vítimas).
 
Se você ainda está perplexo fique mais 1 hora em silêncio pêlos mortos na guerra do Vietnã, da qual os americanos não gostam de ser lembrados.
 
Fica aqui o desejo de que o sensacionalismo dos "ataques à Nave Mãe" não apague as mortes miseráveis causadas por eles todos os dias nos países atingidos por sua política expansionista e devastadora, afinal, já que estes crimes sociais não têm "efeitos cinematográficos!" Ficam em subplanos nos noticiários mundiais.
 
E eles ainda falam em "Freedom"...