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O FACTOR DEUS
Algures na Índia. Uma fila de peças de
artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem.
No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada
e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos,
mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos
dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros
amputados. Os homens eram rebeldes.
Algures em Angola. Dois soldados portugueses
levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro
soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça
do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há
uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num
pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.
Algures em Israel. Enquanto alguns
soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe
à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras.
Estados Unidos da América do Norte,
cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos,
sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico,
lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.
Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício
do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados
nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por
milhares.
As fotografias da Índia, de Angola
e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas
no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte
ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio
repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica,
realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro
de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue,
de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado
como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para
nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou"
quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado
de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a
cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma
chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um
braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até
mesmo isto é repetitivo e
monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram
daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a
napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles
linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados
vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que
arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios
nazis a vomitar
cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se
tratasse.
De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos
seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram
capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda,
a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio
dos tempos e das civilizações,tem mandado matar em nome de Deus.
Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram
para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram
e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios,
de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um
dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos
em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar
em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável,
mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo,
como se levantam
iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais
que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer,
lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização
real.
Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão
falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência
e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse
Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo
que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido
e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais
horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também,
como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou
a interpretar perversamente textos sagrados que
deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso
conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de
consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer
não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que
isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente
como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente
de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes
de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo
que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos
se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos
os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade
e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e
sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no
cérebro
humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou,
mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente
fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus"
o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem
para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina.
E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que
atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta
contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á
que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora
com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles,
pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente
igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual
for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento
e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não
respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir
ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença...)
que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente
lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu.
Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder
ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação
com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E
que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos,
mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos.
Como ficou demonstrado e desgraçadamente
continuará a demonstrar-se.
José Saramago, Escritor, Prémio Nobel
da Literatura »
''Um
divisor de águas para os EUA''
(Entrevista de Noam Chomsky
a GRABRIELA MÁXIMO - JB, 16/9/2001)
Noam Chomsky: um pensador crítico da política externa dos Estados
Unidos.
Desde terça-feira, um dos mais importantes
pensadores americanos, Noam Chomsky, professor do Massachussetts
Institute of Technology (MIT), dá entrevistas uma atrás da outra,
faz conferências e palestras e tenta, assim como todo americano,
superar o trauma deixado pelos atentados terroristas contra as torres
do World Trade Center, em Nova Iorque, e ao prédio do Pentágono,
em Washington. Chomsky, um pensador dissidente do establishment
político americano, é chamado a ajudar a encontrar respostas às
perguntas que se multiplicam numa superpotência consumida pelo medo
e pela perplexidade, e com desejo surdo de vingança que cresce diante
do cenário de devastação deixado pelo terror. Para ele, os atentados
no coração dos Estados Unidos já são um divisor de águas na História
não só do país mas do Ocidente rico de um modo geral. Esta é a primeira
vez em quase dois séculos que os Estados Unidos são atacados em
seu próprio território. É a primeira vez também que um país do Primeiro
Mundo é atacado em casa, nessas proporções, supostamente por agressores
do Terceiro Mundo. ''É uma mudança gigantesca'', disse Chomsky em
entrevista por telefone ao Jornal do Brasil, de sua casa, em Boston.
Crítico contundente da política externa
de seu país, o pensador americano lembra que o principal suspeito
dos atentados, o saudita Osama bin Laden, faz parte de um grupo
de fundamentalistas islâmicos que foi treinado e
armado polos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Hoje, afirma,
há um profundo ressentimento em relação aos EUA no Oriente Médio.
A sociedade americana dificilmente
será a mesma depois da última terça-feira. O que vai mudar na cabeça
das pessoas?
Os atentados foram um divisor de águas
para os Estados Unidos e para o Ocidente de um modo geral. Se olharmos
para a História americana, esta é a primeira vez desde a guerra
de 1812, ou seja, em 200 anos, que o território
nacional foi atacado. Pode-se falar de Perl Harbour, mas lembremos
que os dois lugares atacados na época, Havaí e as Filipinas, eram
colônias e não território nacional. Por ser o primeiro ataque ao
território, representa uma grande mudança. O mesmo é verdadeiro
para a Europa e o Ocidente de um modo geral. A Europa passou por
guerras sangrentas, mas foram internas. O Sul – o que hoje
chamamos de Terceiro Mundo, as ex-colônias - nunca atacou a Europa,
mas foi atacado por ela por centenas de anos. Esta é portanto a
primeira vez que a História toma uma outra direção: as grandes potências
guerreiras são as vítimas e não os perpetradores. É uma mudança
gigantesca.
E de que forma a seu ver esta mudança
se manifestou ao longo dos últimos
dias?
Pode-se observar isto na reação dos
Estados Unidos e particularmente na reação da Europa, que adotou
uma postura reflexiva, considerando o episódio algo sem precedentes,
que nunca aconteceu e etc. E é verdade para o
Ocidente. Mas não é verdadeiro para o resto do mundo. Esta foi a
norma para o resto do mundo por muito tempo. Mas esta cultura imperial
está profundamente arraigada e é muito difícil para as pessoas entenderem.
Sim, este episódio é um marco e também representa uma grande
mudança. O New York Times, num artigo de hoje (sexta-feira), diz
que a partir de agora ou se colabora com os Estados Unidos ou será
destruído. Isto não tem precedente histórico.
Que tipo de reação pode-se esperar
dos Estados Unidos a partir de agora?
Espero algum tipo de operação violenta.
Ela será realizada com o conhecimento, porque eles certamente sabem,
de que isto é exatamente o que pessoas como Osama bin Laden [para
os EUA, o principal suspeito dos atentados]desejam porque
vai ajudá-las a reunir apoio.
E como responder a um inimigo pouco
convencional como Bin Laden?
Da última vez que eles (as autoridades
americanas) decidiram atacar Osama bin Laden, bombardearam uma fábrica
de produtos farmacêuticos no Sudão que nada tinha com isto. Morreram
milhares de pessoas, mas nunca se saberá ao certo, porque quando
o Sudão pediu uma investigação às Nações Unidas, os Estados Unidos
bloquearam. Não tenho dúvida, eles vão atacar onde quiserem.
O que está por trás dos atentados em
Nova Iorque e Washington: ódio aos Estados Unidos, religião sentimento
anti-ocidental?
Vamos supor, talvez corretamente, que
os ataques tenham sido obra de um grupo próximo de Osama bin Laden,
os chamados afeganis, que não são necessariamente afegãos, incluindo
o próprio Bin Laden [que é saudita]. Foram pessoas recrutadas para
a guerra no Afeganistão contra os russos, armados e treinados pelos
Estados Unidos. Os serviços de inteligência do Paquistão recrutavam
os elementos mais violentos que conseguiam encontrar e estes eram
radicais islâmicos do Oriente Médio. Podemos ter uma boa noção do
que eles querem hoje. Osama bin Laden foi entrevistado algumas vezes
pelo jornalista britânico Robert Fisk, o mais eminente correspondente
no Oriente
Médio há décadas. Ele deixa claro o que quer. E o que ele quer,
em suas próprias palavras, é liberar os países islâmicos de agressores
estrangeiros - primeiros os russos do Afeganistão e depois os americanos
da Arábia Saudita - e também derrubar os regimes corruptos de Arábia
Saudita, Egito, Jordânia e outros para implantar o que eles consideram
a forma correta de um regime islâmico. Esta parece ser a maior preocupação.
Por isso, agora pessoas como Osama bin Laden estão rezando por um
ataque massivo para que possam recrutar mais gente. Naquela região
há um enorme ressentimento pelas políticas dos Estados Unidos, em
primeiro lugar, e da Grã-Bretanha na região. Um grande número de
pessoas sofreu muito por causa delas.
Na Guerra Fria, era o comunismo contra
o capitalismo. Há o risco de uma nova polarização, agora opondo
o Ocidente ao mundo islâmico?
Não é inteiramente verdadeiro sobre
a guerra fria. Pegue o Brasil, por exemplo. Quando aconteceu o golpe
militar no Brasil, foi verdadeiramente contra o comunismo? Claro
não. E o mesmo vale para quase todos os acontecimentos da Guerra
Fria. Os conflitos daquela época tinham a Guerra Fria como pano
de fundo. Mas os Estados Unidos e a Rússia usaram os conflitos da
Guerra Fria como uma ferramenta para justificar intervenções que
aconteceram por razões bem diferentes. Quando os Estados Unidos
apoiaram os golpes no Brasil, Argentina e Chile, em outras partes
da América Latina e no Sudeste da Ásia, as questões da Guerra Fria
eram o pano de fundo. Estes tipos de acontecimentos precedem a Guerra
Fria, atravessaram a Guerra Fria e continuaram depois da Guerra
Fria. Olhe o caso do Oriente Médio. Imediatamente depois do colapso
da União Soviética, o governo de George Bush [pai do atual presidente
americano, George W. Bush], em mensagem ao Congresso sobre o orçamento
militar, em 1990, depois da queda do Muro de Berlim, fez uma análise
mundial e referiu-se ao Oriente Médio. Disse: Temos que manter a
maior parte de nossas forças de intervenção no Oriente Médio. E
deixou claro que os russos não eram os responsáveis pelas ameaças.
O que era bem verdadeiro. Eles fingiram rivalidade nos 40 anos precedentes
mas era
apenas um pretexto. Bush foi franco, mas felizmente para ele, a
mídia calou-se a este respeito.
Há risco de uma disseminação de um
sentimento anti-Islã nos Estados Unidos e em outros países ocidentais?
Não anti-Islã. Falar oposição ao Islã
é extremamente enganoso. Vamos observar os fatos: o maior país islâmico
do mundo é a Indonésia, que é um forte aliado dos Estados Unidos.
Sempre foi. Quando houve o golpe militar na
Indonésia em 1965, extremamente sangrento, os Estados Unidos apoiaram,
assim como apoiaram o golpe no Brasil, em 1964, e essencialmente
pelas mesmas razões. Fora o talibã no Afeganistão, o mais radical
Estado islâmico é a
Arábia Saudita, um cliente dos Estados Unidos. Nos anos 80, os chamados
afeganis, Osama bin laden e outros, recrutados, armados e treinados
pela CIA, eram radicais fundamentalistas islâmicos. Ou olhe o que
aconteceu nos
anos 80, quando os Estados Unidos travaram uma guerra na América
Central, um dos maiores inimigos foi a Igreja Católica. É só olhar
a História e os choques de civilizações. Nos Bálcãs, por exemplo,
os Estados Unidos pegaram
os muçulmanos da Bósnia como seus clientes. E eles estava lutando
contra os cristãos ortodoxos.
O que está em jogo agora?
O que aconteceu é novo em escala, mas
não é a primeira vez. Vinte anos atrás, em 1983, o Exército dos
Estados Unidos, que é de longe a força militar mais poderosa do
mundo, foi expulso do Líbano por um terrorista suicida. Quando quando
um homem-bomba se lançou contra uma base militar americana, matando
vários soldados, os Estados Unidos se retiraram. Terroristas suicidas
são incontroláveis.
Então como as Forças Armadas, com seus métodos convencionais, poderão
lidar com este tipo de inimigo?
Eles não podem assim como não conseguiram
no Líbano. Estes são problemas que terão de ser tratados encarando-se
as questões que levam a esta situação. Elas crescem a partir de
alguma coisa. Não se trata de justificativa para o crime, mas elas
nascem de alguma coisa, não surgem do nada. Vêm de uma enorme reação
popular de hostilidade em relação às políticas dos Estados Unidos
e da Grã-Bretanha para a região. Tome por exemplo o Iraque. Não
se sabe quantas pessoas morreram por causa das sanções. Uns dois
anos atrás, a secretária de Estado Madeleine]Albright,
diante do número de meio milhão de crianças mortas, disse bem este
é um preço alto mas estamos dispostos a pagá-lo. Imagine o que sentem
as pessoas da região. Pense nos territórios ocupados. As pessoas
no Ocidente podem decidir não prestar atenção, mas as pessoas lá
na região definitivamente prestam atenção e sabem muito bem quem
é o responsável. Helicópteros, aviões militares e mísseis atacam
alvos civis nos territórios ocupados. São helicópteros, aviões militares
e mísseis americanos - e eles sabem disto.
O senhor vê o risco de uma escalada
de violência, com reação seguida de contra-reação e assim por diante?
É muito provável. Conhecemos este tipo
de dinâmica, embora em menor escala. Na Irlanda do Norte, por exemplo,
os dois lados querem matar em retaliação ao último ataque. Sabemos
como acontece. É uma escalada de violência.
Este tipo de terror pode se espalhar
para a Europa?
Sem dúvida. Se eles cooperarem com
os Estados Unidos, sem dúvida irá acontecer.
E que tipo de guerra o senhor acha
que virá?
Provavelmente o tipo de guerra que
vimos na terça-feira pela primeira vez no Ocidente, mas que é muito
familiar ao Terceiro Mundo, onde tem sido assim por séculos.
Que armas devem ser empregadas contra
um inimigo difícil de identificar?
Eles vão usar a tecnologia. O que os
Estados Unidos estão fazendo agora é o que chamam de revolução na
tecnologia militar. A guerra dos Bálcans foi um exemplo disto, a
guerra do Iraque também. É uma guerra na qual se ataca de uma boa
distância, com uma força massiva
A superpotência que gasta bilhões de
dólares em defesa e atém planeja construir um escudo antimísseis
no espaço, levando a corrida armamentista para as galáxias, mostrou
ser vulnerável ...
O escudo antimísseis não é destinado
à defesa. Lembre-se. Todo aparato militar ofensivo da História sempre
foi disfarçado de defensivo. Você consegue vender algo como defesa,
mas não consegue vender como ataque. Este é um programa de militarização
do espaço e o comando militar para o espaço é bem franco em relação
a isto. Há documentos que explicam muito claramente o que estão
fazendo. Querem fazer a militarização do espaço para proteger seus
interesses comerciais e seus investimentos. Isto vai aumentar as
desigualdades entre os que têm e os que não têm e vai levar a mais
confrontos.
Desde a manhã de terça-feira, os americanos
sentem que não estão seguros em sua própria casa. Que conseqüências
podem vir deste sentimento de vulnerabilidade?
Os americanos estão sentindo-se vulneráveis
pela primeira vez em 200 anos e há o crescimento de um sentimento
nacionalista.
E o que o senhor, pessoalmente, desejaria
que mudasse a partir de agora na mentalidade da sociedade americana?
O que espero é que, ao invés de achar
que têm de ser lideradas por sentimentos de vingança, mesmo sabendo
que isto levará a mais violência, o que as pessoas deveriam fazer
é reavaliar a situação, perguntando qual é o seu pano de fundo e
o que podemos fazer para melhorar. É a única forma de proteger a
si próprio. Mas com o país entrado num frenesi nacionalista é difícil
pensar até mesmo na própria segurança.
As novas relações
internacionais
Ricardo Seitenfus
O gesto extremo de pessoas ordinárias
despertou bruscamente o mundo para a sua própria estreiteza. Antes
que os desdobramentos do ataque de 11 de setembro venham a marcar
com ainda mais vigor as relações internacionais, já são visíveis
alguns pontos de ruptura. Eles podem resultar numa evolução positiva,
reforçando a cooperação internacional, ou negativa, com o avanço
do nacionalismo, do maniqueísmo e da xenofobia.
Em primeiro lugar, a idéia de que a história havia acabado mostrou-se
absurda: ainda há espaço para o inesperado, o curso do mundo não
está definido. O determinismo com que todos os fatos eram apresentados
deu lugar à incerteza. Nada é inevitável, a começar pelo atual modelo
de globalização. Sendo assim, nenhuma submissão é obrigatória.
Num mundo em mutação, os gigantes pagam o preço de sua própria força.
Não se trata de uma interpretação positiva do terrorismo, mas da
simples constatação de que há elementos outros em jogo além dos
fatores econômicos e que o determinismo é, antes, um argumento a
sustentar o conformismo. Em segundo lugar, a pauta de governo da
administração Bush foi atingida em sua essência.
O presidente americano acreditou que
poderia conduzir uma política externa à la carte, agindo no exterior
somente em último caso, com custo mínimo possível, guiado apenas
por seus interesses internos. Entre os exemplos dessa decisão política
está a recusa em subscrever importantes convenções internacionais,
como o Protocolo de Kyoto. Mas, sobretudo, há o incondicional apoio
a uma das partes no gravíssimo conflito no Oriente Médio.
Desabou com as torres gêmeas a idéia
de que "a paz é a guerra alhures". Uma eventual "paz dos cemitérios"
entre israelenses e palestinos pode significar a guerra no Ocidente.
O estilhaço atroz de um conflito criado pela comunidade internacional
nos anos 40, que ela desde então se recusa a enfrentar, talha o
horizonte do novo século.
Mais do que uma prova de que nenhum lugar do planeta é intocável,
já que a própria superpotência foi atacada em seu coração financeiro
e militar, o 11 de setembro é um desesperado apelo para que Washington
seja mais do que simples guardiã do status quo. Ora, Bush sai hoje
da concha e volta-se para a comunidade internacional, dirigindo-se
inclusive a Cuba, com inédita consciência de pertencer a um mundo
interligado e dependente. Surge então a terceira
questão: sobre que bases será construída essa nova consciência coletiva
internacional?
É espúria a tentativa de infantilização
do mundo por meio da idéia de guerra do bem contra o mal. É até
compreensível que o pitoresco Bush apresente o mundo como um bom
faroeste. Mas os EUA já colaboraram com
regimes políticos perversos, lançaram a bomba atômica e aceitam
de bom grado a miséria que seu sistema econômico provoca na
maior parte do mundo. Nesse "casting", o papel de mocinho seria
inverossímil.
É espúria a tentativa de infantilização
do mundo por meio da idéia de guerra do bem contra o mal Por outro
lado, a visão do bandido é fluida, aumentando o risco de atirar
no próprio pé. Embora Osama bin Laden seja inimigo declarado dos
EUA, estes encontram dificuldades para obter provas cabais de sua
participação no ataque de 11 de setembro. Sua fortuna pessoal, em
termos de custo de operações militares, é insignificante. Óbvio
que o financiamento provém de outras fontes e, mais importante,
que há grupos autônomos decididos a agir.
E aqui surge a quarta questão: como
pessoas comuns, tão instruídas quanto a elite ocidental, que fizeram
seus estudos na Europa e desfrutaram do "american way of life",
tornam-se capazes de tais atos de barbárie?
O terrorista diabólico, demente, ignorante
e insociável - como o pintava o imaginário ocidental- pode ser,
na verdade, um homem gentil, inteligente e socialmente adaptado,
que elabora com lucidez e precisão impressionantes o golpe que vai
ceifar a vida de milhares de inocentes, que planeja no seu cotidiano
ordinário o gesto que marcará a história.
Os terroristas, ao cometerem um ato
de inominável covardia, foram movidos, paradoxalmente, por uma coragem
impressionante, que, originando-se no fanatismo, é executada por
meio do conhecimento e, portanto, da ciência. Talvez seja essa a
mais terrivelmente incômoda constatação do episódio, pois mostra
o quanto os serviços de inteligência são - e continuarão sendo-
incapazes de combater o terrorismo suicida. A única inteligência
que pode evitar a barbárie nada tem a ver com os cânones que orientam
a CIA e o FBI.
O desafio é maior. Mais do que não obter a paz internacional, países
como os EUA contribuem, em suas ações e omissões, para que a guerra
e a injustiça perdurem em muitos rincões do mundo, conforme seus
interesses estratégicos. Patente exemplo está no apoio concedido
pelos americanos aos próprios talibans na luta contra os soviéticos.
Ora, não é a guerra ou o ataque ao
mundo islâmico que coibirá essa fúria. Uma reação militar indiscriminada
do Ocidente só pode potencializá-la assustadoramente. De que adianta
bombardear o Afeganistão?
A única forma de combater os terroristas
não tem apelo eleitoral nem resultado rápido. É eleger a guerra,
a miséria e a intolerância como inimigos. A predominância dos interesses
econômicos que caracteriza a nossa época e a submissão do espaço
político coletivo ao império financeiro traz um bem-estar restrito
a poucos, falso e precário. Somente o tratamento coletivo
dos problemas da humanidade, com a predominância dos interesses
do homem - e não de alguns homens -, construindo o império da solidariedade
e do direito, pode opor-se às barbáries da nossa época - o terrorismo
entre elas.
Ricardo Antônio Silva Seitenfus, 53,
doutor em relações internacionais pelo Instituto Universitário de
Altos Estudos Internacionais (Genebra), é professor titular da Faculdade
de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e professor
convidado do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Universidade
Paris 3).
SABIAS
QUE:
Se fosse possível reduzir a população do mundo inteiro a
uma vila de 100 pessoas, mantendo a proporção do povo existente
agora no mundo, tal vila seria composta de:
57 Asiáticos
21 Europeus
14 Americanos (Norte, Centro e Sul)
8 Africanos
52 seriam mulheres
48 homens
70 não brancos
30 brancos
70 não cristãos
30 cristãos
89 seriam heterossexuais
11 seriam homossexuais
6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo inteiro e todos
os
6 seriam dos EUA
80 viveriam em casas inabitáveis
70 seriam analfabetos
50 sofreriam desnutrição
1 estaria para morrer
1 estaria para nascer
1 teria computador
1 teria formação universitária
Se o mundo for considerado sob esta perspectiva, a necessidade
de aceitação, compreensão e educação torna-se evidente. Considere
ainda que se acordaste hoje mais saudável que doente, tens mais
sorte que um milhão de pessoas, que não verão a próxima semana.
Se nunca experimentaste o perigo de uma batalha, a solidão
de uma prisão, a agonia da tortura, a dor da fome, tens mais sorte
que 500 milhões de habitantes no mundo. Se podes ir a igreja sem
o medo de ser bombardeado, preso ou torturado, tens mais sorte
que 3 milhões de pessoas no mundo.
Se tens comida na frigorifico, roupa no armário, um tecto
sobre a cabeça, um lugar para dormir, considera-te mais rico que
75% dos habitantes deste mundo.
Se tiveres dinheiro no banco, na carteira ou uns trocos em
qualquer parte, considera-te entre os 8% das pessoas com a melhor
qualidade de vida no mundo.
Se teus pais estão vivos e ainda juntos, considera-te uma
pessoa muito muito rara. Se puderes ler esta mensagem, recebeste
uma dupla benção, pois alguém pensou em ti e tu não estas entre
os dois mil milhões de pessoas que não sabem ler.
SECTARISMO
Laura Schlessinger é uma personalidade da rádio americana que distribui
conselhos para pessoas que ligam para o seu show.
Recentemente ela disse que a homossexualidade é uma abominação de
acordo com Levíticos 18:22 (Antigo Testamento) e não pode ser perdoado
em qualquer circunstância.
O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura, escrita por um
cidadão americano e também disponibilizada na Internet.
"Cara Dra. Laura:
Obrigado por ter feito tanto para educar
as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido
muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas
pessoas quantas posso.
Quando alguém tenta defender a homossexualidade, por exemplo, eu
simplesmente lembro que Levíticos 18:22 claramente afirma que isso
é uma abominação. Fim do debate.
Mas eu preciso da sua ajuda, entretanto,
no que diz respeito a algumas leis específicas e como segui-las:
a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que
isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema
são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para
eles. Devo matá-los por heresia?
b) Eu gostaria de vender a minha filha como escrava, como é permitido
em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço
justo por ela?
c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto
ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24).
O problema é: como é que eu digo isso a ela ? Eu tenho tentado,
mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.
d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens
quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um
amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses.
Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses?
e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo
35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente
obrigado a matá-lo eu mesmo?
f) Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação
(Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade.
Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?
g) Levíticos 21:20 afirma que eu não me posso aproximar do altar
de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos
para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um
jeitinho?
h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo
das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos19:27.
Como devem eles morrer?
i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos11:6-8),
mas eu posso jogar futebol americano sem usar luvas? (as bolas de
futebol americano são feitas com pele de porco)
j) O meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando
dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também
viola Levíticos 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes
de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar
muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los
(Levíticos 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los
numa cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm
relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?
Eu sei que você estudou essas coisas
a fundo e então estou confiante de que me possa ajudar. Obrigado
novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável.
Seu discípulo e fã ardoroso."
SOLIDARIEDADE ÀS
VÍTIMAS DO WORLD TRADE CENTER
Se você ainda está chocado com as imagens
da semana, aproveite para fazer um minuto de silêncio em homenagem
aos 10.000 (?) americanos, a maioria civis inocentes, mortos covardemente
por terroristas que ainda não se sabe quem são.
Já que você está em silêncio, fique
mais 13 minutos em homenagem aos 13.000 civis iraquianos mortos
em 1991 por ordem do Bush Pai. Aproveite para lembrar que naquela
ocasião os americanos também fizeram festa, como ao palestinos fizeram
semana passada.
Emende mais 20 minutos pêlos 200.000
iranianos mortos pêlos iraquianos com armas e dinheiro fornecidos
a Sadam Hussein (ainda novinho na época) pêlos mesmos americanos
que mais tarde virariam sua artilharia contra ele.
Mais 15 minutos pêlos russo e 150.000
Afeganistão mortos pelo Taliban, também com armas e dinheiro americano.
Mais 10 minutos pêlos 1.000.000 de
japoneses mortos direta e diretamente em Hiroshima e Nagazaki, também
por ação direta da águia.
Você já está em silêncio uma hora (um
minuto pêlos americanos e 59 por suas vítimas).
Se você ainda está perplexo fique mais
1 hora em silêncio pêlos mortos na guerra do Vietnã, da qual os
americanos não gostam de ser lembrados.
Fica aqui o desejo de que o sensacionalismo
dos "ataques à Nave Mãe" não apague as mortes miseráveis causadas
por eles todos os dias nos países atingidos por sua política expansionista
e devastadora, afinal, já que estes crimes sociais não têm "efeitos
cinematográficos!" Ficam em subplanos nos noticiários mundiais.
E eles ainda falam em "Freedom"...
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